O presidente reeleito, Luiz Inácio Lula da Silva, fará um pronunciamento em cadeia de rádio e tevê, no domingo (8/11). Até o fechamento deste texto, no início da tarde de sexta-feira (6/11), o horário ainda não tinha sido definido. A fala do presidente foi gravada na quinta-feira (5/11), no Palácio do Planalto.
No pronunciamento, Lula agradecerá à população que ocupou as ruas do Brasil e as redes sociais, garantindo a sua vitória, de virada, no segundo turno, com mais de 64 milhões de votos, 10 milhões a mais que no primeiro turno, quando ficou atrás do candidato Flávio Bolsonaro. Reforçará seu compromisso com os que o elegeram de não realizar cortes nas áreas sociais, ao contrário do que prometeu seu adversário.
Segundo aliados, para fazer frente às pressões dos bancos e demais grupos econômicos que detêm cerca de 80% da dívida pública e cobram cortes profundos no Orçamento de União, Lula dirá que pretende trabalhar pela sustentabilidade orçamentária. Mas não deverá detalhar as medidas que vai tomar para garantir esta sustentabilidade.
Compromisso com os eleitores – Na conversa ao vivo pelo YouTube que teve nesta quinta-feira com o “Exército do Lula”, organizada pelo deputado André Janones (Avante-MG) e assistida por 700 mil pessoas, o presidente se comprometeu, mais uma vez, a respeitar as promessas feitas na campanha eleitoral. “Eu não posso trair o imaginário desse povo que acreditou. Não posso. Eu tenho que fazer tudo o que nós prometemos e fazer muito mais”, declarou.
Uma das formas de cumprir o prometido aparece no estudo do economista e ex-presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, um dos coordenadores do plano de governo do quarto mandato de Lula. Intitulado “Política fiscal para o fim de 2026 e para 2027 — Poucas lições tiradas do programa eleito com o presidente Lula”, divulgado na segunda-feira (2/11). Nele, Gabrielli contesta a tese de que a redução dos gastos públicos, especialmente nas áreas sociais, possa controlar sozinho, o crescimento da dívida brasileira.
Para o coordenador do plano de governo, o ajuste passa pelo debate a respeito dos juros da dívida pública que representam uma transferência de recursos do Estado aos detentores de títulos públicos, 75% ligados a bancos e ao sistema financeiro, enquanto as propostas de austeridade frequentemente concentram seus efeitos sobre despesas que financiam serviços e políticas sociais, destinados à população mais vulnerável no Brasil.
Juros fazem dívida disparar – Numa entrevista à revista Fórum, Gabrielli sustenta que a discussão sobre as contas públicas costuma privilegiar o resultado primário — diferença entre receitas e despesas antes do pagamento de juros — e deixar em segundo plano o custo financeiro da dívida. Os números apresentados no estudo dimensionam essa diferença.
Em agosto de 2026, a dívida pública bruta brasileira alcançou R$ 11,1 trilhões, equivalentes a 82,9% do PIB. Os juros nominais acumulados em 12 meses chegaram a R$ 1,2 trilhão, com a Selic mantida em 13,75%, os maiores juros do mundo. O déficit primário do governo central, por sua vez, correspondia a 0,62% do PIB.
Embora os indicadores tenham abrangências diferentes, Gabrielli utiliza a comparação para demonstrar a importância do custo dos juros na dinâmica fiscal. Ou seja, a Selic alta faz com que a dívida pública tenha um aumento exponencial, o que não se resolve cortando as despesas primárias.
O ex-presidente da Petrobras identifica ainda uma contradição entre uma política fiscal que precisa preservar investimentos e uma política monetária baseada em juros elevados. Para Gabrielli, a manutenção de taxas altas dificulta o crescimento econômico, amplia o custo da dívida e reduz a capacidade de financiamento das políticas públicas.
O economista defende uma discussão sobre novos mecanismos de coordenação entre as políticas fiscal e monetária, mencionando proposta de André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, de criação de uma estrutura mais ampla do que o Conselho Monetário Nacional.
“Não há como enfrentar esses problemas sem uma intensificação das tensões entre uma política fiscal minimamente expansionista e uma política monetária que permanece extremamente contracionista. O conflito se manifesta nas ações do Tesouro e do BACEN (Banco Central) no dia-a-dia do mercado financeiro, mas também deve ser seguido pelo Conselho Monetário Nacional, que fixa metas e normas no âmbito legal para o mercado monetário, com o BC autônomo conduzindo a política monetária. O Copom define a Selic e as orientações operacionais. Por isso merece atenção especial a proposta de André Lara Resende de criação de um mecanismo mais amplo do que o CMN para coordenar a política monetária e fiscal no Brasil. O pior dos mundos é a situação de conflito de objetivos entre as duas políticas no curto prazo”, descreve.
A preocupação é evitar que decisões destinadas a conter a inflação produzam efeitos fiscais e econômicos contrários aos objetivos de desenvolvimento e investimento do governo. O economista, porém, não afastou a possibilidade de ajustes.
Disse reconhecer que o déficit primário também influencia as expectativas econômicas, o câmbio e o custo de financiamento do governo. Sua crítica é à ideia de que a redução das despesas primárias, isoladamente, seria capaz de estabilizar a dívida.

