Em decorrência da falta de uma ação efetiva do governo federal, que se nega a fazer investimentos no INSS, a fila de pedidos de autorização de benefícios previdenciários, como aposentadorias e pensões, novamente, virou manchete da cobertura jornalística nacional. Com parque tecnológico obsoleto, tanto computadores, impressoras e digitalizadoras, sistemas inoperantes, quanto pelo número cada vez menor de servidores pela ausência de concurso há décadas, a fila de pedidos represados chegou a absurdos 2 milhões.
Segundo o âncora da Globonews, César Tralli, esta marca foi atingida em dezembro de 2024. “Esses são os números oficiais divulgados pelo INSS. Se comparados com os de 2023, houve um crescimento de cerca de 500 mil pedidos. O Ministério da Previdência disse que parte destes pedidos, cerca de 314 mil, foi de solicitações reapresentadas e que já tinham sido negadas. O ministério diz que está tomando medidas para reduzir a fila com a nomeação de candidatos aprovados em concurso público e a realização de um mutirão de servidores para analisar os pedidos” noticiou Tralli, na emissora, esta semana.
E completou: “Esse é um problema crônico da Previdência Social aqui no Brasil. Fiz dezenas de reportagens por décadas e ninguém resolve isso. Essa fila só aumenta, as pessoas ficam esperando, não conseguem o atendimento necessário, se sentem humilhadas. A Previdência Social tem que mudar, ser mais tecnológica, ter mais estrutura, responder mais rapidamente às pessoas”, afirmou.
O diretor da Federação Nacional (Fenasps), Daniel Emmanuel, concordou com as afirmações do jornalista. “A análise e o comentário do Cesar Tralli expressam bem a situação do INSS e da Previdência hoje, criada graças à inoperância dos sistemas, ao enorme déficit de servidores (mais de 20 mil vagas), de fluxos de trabalho que não atendem à necessidade de responder à demanda da análise de pedidos de benefícios feitos pela população. Isso impede a prestação de um serviço que atenda estes pedidos que se avolumam, ao mesmo tempo que é enorme a pressão sobre os servidores que não conseguem atender a toda esta demanda”, afirmou o dirigente.
Daniel ressaltou que dados oficiais mostram que o sistema fica cerca de 1/3 do tempo inoperante. Disse que, além disto, o modelo de trabalho (que empurrou os segurados para os canais digitais) limitou muito o atendimento ao público, dificultando a prestação do serviço. “Como disse o jornalista, e é o que temos cobrado há anos, é que há uma necessidade urgente e crônica de investimentos, de modernização do sistema e dos equipamentos, e de uma transição para o uso dos canais digitais, para que os setores da população mais pobre, e idosos – que são parte considerável dos segurados do INSS, e não têm condições de acessar estes serviços – tenham garantido o atendimento presencial nas agências”.
Caos pode crescer ainda mais – O diretor do Sindsprev/RJ, Paulo Américo creditou a situação caótica do INSS ao longo processo de desmonte estrutural, que se ampliou neste governo, com agências do INSS desmanteladas, equipamentos com funcionamento caótico, sistemas que não funcionam e que apresentam sérios problemas diários, além de internet de péssima qualidade e um grave déficit de servidores, devido a não realização de concurso. “Além disto, o governo está priorizando o atendimento através de canais digitais o que dificulta o acesso da população com menos esclarecimento sobre o funcionamento destas ferramentas”, argumentou.
Avaliou um futuro sombrio para o INSS e toda a Previdência Social. “Além do processo de desmonte, vem por aí a implantação de um sistema de análise de concessão baseado em inteligência artificial o que será pior ainda. A IA pode ser um elemento de apoio, mas a análise final tem que ser feita pelo servidor. É uma visão, não de fortalecimento do INSS, enquanto serviço prestado à população, mas do seu esvaziamento, substituindo a mão-de-obra especializada por inteligência artificial, ou por atendentes improvisados, como já colocaram estagiários e militares. É um conjunto de medidas que fazem parte de um projeto baseado no desmonte da estrutura da Previdência que já mostrou que não dá certo, mas os governos insistem nisso”, afirmou.
‘Sem concurso a fila não anda’ – Para o dirigente, a intenção é entregar parte da previdência pública para o setor privado. “Querem transferir esta fatia enorme de recursos e deixar sob o controle de grandes bancos. É esse o sentido deste projeto posto em prática na Previdência Social”, disse.
Já o diretor do Sindicato, Vinicius Lopes, lembrou que uma das principais reivindicações das greves do INSS é a contratação de servidores via concurso público. “Sem concurso a fila não vai andar”, avaliou. Criticou o uso da inteligência artificial na análise de pedidos de benefícios previdenciários.
“O INSS não tem saído das manchetes de jornais pelo acúmulo de pedidos em análise, chegando a mais de 2 milhões. Não vai adiantar a inteligência artificial porque a análise do mérito é do concessor de benefícios e não da IA. O que vem ocorrendo é que a IA vem indeferindo sumariamente milhares de pedidos, isso dito pelo Tribunal de Contas da União (TCU), na base de 15% de todo o volume de concessões”, frisou.
‘Burrice digital’ – Acrescentou que, segundo o TCU, são indeferimentos indevidos, sem análise de mérito. “O que é um retrabalho: o segurado vai entrar novamente, este novo requerimento entra na fila nacional, é feita exigência ao segurado, o que leva cinco, seis meses. A média de concessão, ao contrário do que é dito, não é de 45 dias, como diz a lei, é em torno de cinco a seis meses, justamente porque a inteligência artificial tem trazido muitos problemas. A IA veio para ficar como suporte e não como detentor da capacidade para analisar e conceder benefícios”, argumentou.
Disse que a fila tem várias razões, mas a principal é a carência de servidores. “E, a propósito, a situação deve piorar. Nos próximos meses, muitos servidores vão se aposentar. Metade dos atuais já se encontram em condições de se aposentar, segundo dados oficiais do TCU e do INSS”. Advertiu que as pretensas soluções propostas pelo governo não solucionarão o problema, como criar grupos de trabalho e forças-tarefa.
A diretora da Fenasps, Thaize Antunes, disse que os números da fila são o reflexo de decisões de gestão equivocadas da direção do INSS, déficit de mais de 40% no quadro dos servidores, problemas estruturais, além de sistemas lentos, parque tecnológico obsoleto e falta de política de valorização dos servidores.