Ordenada em 14 de julho de 2012 pelo então governador do Rio, Sergio Cabral Filho, a desativação do Hospital Central do Iaserj (Cruz Vermelha) foi um ataque sem precedentes à saúde pública brasileira. O HC, como era carinhosamente chamado pelos usuários, possuía 450 leitos e atendia uma média de 10 mil pacientes ao mês, a maioria servidores públicos do município do Rio e de todo o Estado, em diversas especialidades médicas. Na verdade, o Iaserj era um complexo de saúde formado pelo Hospital Central da Cruz Vermelha e vários ambulatórios, dos quais apenas o do Maracanã ainda continua em funcionamento. Os demais ambulatórios — como os da Gávea, Penha, Madureira, Nova Iguaçu e Niterói — também foram desativados. Um desmonte iniciado a partir de 2008. Portanto, muito antes da absurda desativação do Hospital Central, ocorrida em 2012, e da subsequente demolição do prédio, em novembro do mesmo ano.
O mais recente ambulatório do Iaserj a ser fechado foi o de Niterói, cuja desativação ocorreu em 7 de abril deste ano. Ironicamente, o Dia Mundial da Saúde. “Alguns ambulatórios do Iaserj foram transformados em clínicas da família, onde o atendimento é generalista. A verdade é que infelizmente estão reduzindo atendimentos e, consequentemente, as pessoas estão adoecendo cada vez mais. Os ambulatórios do Iaserj tinham médicos especialistas, realizavam exames e forneciam medicamentos. No ambulatório de Niterói, por exemplo, havia 94 médicos. O pior é que o governo Claudio Castro (PL) fechou aquele ambulatório sem qualquer aviso prévio ou explicação aos pacientes. Foi muito desrespeito”, criticou Vitória Regia Cordeiro da Silva, integrante do Movimento de Moradores e Usuários em Defesa do Iaserj (Mudi).

Ex-professora e servidora pública aposentada do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), Vitória Regia Cordeiro da Silva cita as contrapartidas então prometidas pelo governo do Estado do Rio após a desativação do Hospital Central. “Tínhamos a promessa de transferência do Hospital Central do Iaserj para o Instituto Estadual do Cérebro, mas ali o espaço era pequeno para receber o Iaserj. Era preciso um lugar maior. Aí, naquele momento o Sergio Cabral foi preso e então ninguém mais falou sobre contrapartida. O fato é que nós, pacientes, continuamos morrendo nas filas do SUS porque, para sermos atendidos, temos que passar pelo Sisreg (Sistema de Regulação) nas clínicas da família”, frisa.
A agenda principal do Mudi, no momento, é solicitar (e conseguir) uma audiência presencial com o governador interino, Ricardo Couto, a fim de apresentar as demandas e reivindicações em relação ao Iaserj. “Queremos discutir com o governador a possibilidade de reerguimento do Iaserj, um complexo de saúde fundamental para a população de todo o Estado do Rio. No passado eu usei muito o Iaserj e sou muito grata a todos os médicos que me atenderam. Eu tive uma doença curada que, de um tumor, podia ter virado um câncer, mas o médico do Iaserj conseguiu fazer um tratamento excelente e com poucos recursos, revertendo o quadro”, explicou Vitória Regia.

O Mudi surgiu em 2012, após a desativação do Hospital Central do Iaserj. Na época, seguindo o exemplo da Afiaserj, o Mudi também ingressou na justiça com o objetivo de embargar a demolição. Todos os pedidos, no entanto, foram recusados pelo judiciário, que se manifestou após a demolição e alegou “perda de objeto” das ações. O Mudi e outros movimentos de defesa da saúde pública também pediram à Alerj a instauração de comissões parlamentares de inquérito (CPIs) para apurar os fatos ocorridos na desativação e posterior demolição do Hospital Central do Iaserj. Nunca houve resposta.
Todas as iniciativas em defesa do Iaserj foram desde o início apoiadas política e materialmente pelo Sindsprev-RJ, que integrou a histórica mobilização visando barrar a desativação do Hospital Central, ocorrida em julho de 2012. Além do Sindsprev-RJ, participaram daquelas mobilizações o Sepe-RJ, a Afiaserj, a CSP-Conlustas e a Fist, entre outras entidades dos movimentos social e sindical. Na ocasião, após dias de heroica resistência, o governo Sergio Cabral Filho promoveu uma grande repressão com o uso da tropa de choque da PM contra os servidores que então ocupavam o prédio do HC. O governo também transferiu, de madrugada, os pacientes ainda internados no Hospital Central.

Assista à entrevista de Vitória Regio Cordeiro da Silva ao Sindsprev-RJ, clicando no link abaixo. Imagens e edição do repórter cinematográfico Luis Maciel.

