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sexta-feira, julho 31, 2026
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Marcha das Mulheres Negras ocupa Copacabana e exige reparação e bem viver

Milhares de mulheres negras marcharam no último domingo (26), em Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), em “Defesa da democracia, contra o racismo, pela reparação e pelo bem viver”. Este foi o tema escolhido para a 12ª edição da Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro para promover justiça social e condições dignas de vida para a população negra, além de cobrar políticas públicas que enfrentem as desigualdades históricas e o racismo. O ato celebrou o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela.

A manifestação também valorizou a cultura, a identidade e a ancestralidade da população negra por meio de apresentações artísticas, faixas, turbantes, músicas e discursos. Participantes de diferentes idades percorreram a orla defendendo o direito a uma vida digna, segura e livre de discriminação.

Participantes de diferentes idades percorreram a orla defendendo o direito a uma vida digna, segura e livre de discriminação. Foto: Magá

O Sindsprev/RJ esteve presente com os diretores Ana Paula Soares, Sebastião de Souza e Osvaldo Sérgio Mendes.

A diretora do Sindsprev/RJ, Ana Paula Soares, considera a Marcha das Mulheres Negras como um direito da mulher negra de conseguir desacelerar.

“Conseguir se conscientizar de quem ela é e a importância que ela tem. Muitas vezes isso não existe por conta da correria. Nessas horas não vemos saúde, qualidade da educação, violência. Não conseguimos nem ter essa diferenciação da mulher branca com a mulher negra. Dentro de uma comunidade, hoje, a mulher branca e a mulher negra estão juntas. Mas não é aquela mulher branca que queremos falar. É sobre uma pessoa branca, mas que passa as mesmas dificuldades economicamente falando. Mas da história viral da mulher branca com a mulher negra”, comentou a dirigente sindical.

Ana Paula ressaltou ainda que ouvir falas faz com que se tenha empatia.

“Muitas das vezes a gente não tem empatia com outra mulher negra. Eu sou uma mulher negra da Saúde. Tem a mulher negra doméstica. Quantas vezes eu ouvi dentro de uma casa, de um home care, “não quero que você urine no banheiro”. Recebi uma garrafa Pet para urinar. “Não quero que você penteie o seu cabelo no meu banheiro. Porque não quero ver esses cabelos pelo meu banheiro”. Eu sendo enfermeira (era técnica de enfermagem, hoje é enfermeira). Como a deputada Rejane falou; a Home Care é continuação de senzala”, lamentou.

A dirigente sindical ressaltou que a sociedade precisa saber como as mulheres negras ainda são muito prejudicadas.

“Se fosse branca ela, não falaria daquele jeito. Não teria me dado uma garrafa pet para urinar porque estava com nojo de mim. São coisas muito entristecidas. E o desacelerar significa a gente reconhecer, voltar para casa, pegar os relatos de nossas mães, de nossas filhas, das pessoas que têm muito que acrescentar. A Marcha das Mulheres é esse símbolo da gente conseguir parar para se ouvir, para se ver, se respeitar e entender que tem muita coisa ainda para mudar”, analisou.

Ana Paula chama a atenção que o importante não seria discriminar a mulher branca, mas fazer com que ela tenha consciência da dor da mulher negra.

“E juntas conquistar coisas melhores para as mulheres. E nós mulheres negras, com essa dor invisível que precisa ser relatada. Precisamos falar: eu quero um bem viver, mas um bem viver completo, sem ter essa dor na hora da fala. Poder saber que meus filhos, minhas descendências não vão precisar ter esse tipo de dor”, comentou.

A sindicalista sugere um jurídico, nas empresas ou órgãos públicos,  especializado em causas negras, como forma de apoio aos injustiçados e perseguidos.

Sebastião de Souza revelou que tem 12 irmãos, todos criados em Comunidade.

“Minha mãe negra passou boa parte de sua vida criando 12 filhos em uma favela. Ninguém se envolveu com o tráfico. Minha mãe sempre foi guerreira. A luta não se resume somente a uma Marcha. A luta da mulher negra é todo dia. Porque todo dia essa mulher negra está na marcha. Ela trabalha na Baixada, ela trabalha em uma favela, ela trabalha em uma Comunidade, ela vem de todos os setores da sociedade para desenvolver suas tarefas como a Ana Paula foi bem explicita aqui. Mas tem mais algumas coisas que posso colocar aqui que são cruciais para as mulheres negras: são as que morrem mais de feminicídio, são as que morrem mais na periferia, são as que morrem mais na favela, são mais mal tratadas no seu setor de trabalho. Seja ela quem for”, frisou o dirigente sindical.

O diretor Sebastião de Souza acrescentou que ouve muitos relatos de pessoas julgadas pela cor da pele.

“Isso é maldade. O ódio é muito grande. Quando uma pessoa da pele branca toma uma postura contra nós, ela não está tomando uma postura dela, ela está repetindo o que os antepassados fizeram comigo e com meus ancestrais. Não existe ninguém bom. Nós somos rotulados. Isso só vai terminar quando o negro olhar de igual para igual. Infelizmente, politicamente, o negro ainda é muito ‘sim senhor’, ‘sim senhora’. O negro ainda quer ser amigo do branco. Não estou querendo fazer fala de ódio, mas temos que saber até onde o branco quer ser nosso amigo. Não podemos ser mais ingênuos. A partir de agora vou participar de todas as Marchas. Participar, não estar no meio delas. Tirando foto, acompanhando. Politicamente, o que eu vi no domingo me deixou um pouco estarrecido. Respeitando a posição da mulher, mas todo mundo querendo o microfone. Nós, negros, temos que saber que não é um mandato que muda a nossa vida. O que muda a nossa vida é o parlamento e o nosso dia a dia. São nossas posturas. Nossas posturas que mudam as nossas vidas”, enfatizou o dirigente sindical.

O diretor Osvaldo Sérgio Mendes destacou que a Marcha tem grande importância porque torna público as dificuldades das mulheres negras em relação as políticas públicas.

“Não existe política púbica porque isso vem do Estado. E o Estado como nos vê? Não só as mulheres negras. As mulheres negras sofrem mais por conta dessa invisibilidade, incluindo o homem negro também. Eu estava na marcha, participando, enquanto apoiador. Enquanto um militante do movimento negro unificado que é o movimento mais antigo do país nessa luta contra o racismo, contra a discriminação, contra o feminicídio, que hoje perpetua, e é algo que as mulheres negras mais sofrem. E o Estado não tem uma política assertiva contra o feminicídio que vem ocorrendo com as nossas mulheres. Cada dia que passa morre quatro, cinco, seis mulheres por dia. Isso é absurdo. E, por conta da invisibilidade, o Estado nos vê como inimigo e não fazem políticas públicas para os negros”, comentou.

O dirigente sindical comentou que o Estado preservou a escravidão durante séculos para que a escravidão se perpetuasse.

“Então, o Estado brasileiro é um estado racista. É um estado homofóbico, é um estado machista. Por isso, ele vê a mulher negra bem distante. Por isso, a importância dessa Marcha. Quando eu comecei no movimento, eu me perguntava: por que que tem que ser a Marcha das Mulheres Negras? Por que não é uma Marcha geral das mulheres. Não só negras mas de brancas também? Porque é essencial e fundamental que as mulheres negras se mantenham originalmente negras. Por que? Porque a mulher negra sofre muito mais do que qualquer mulher nesse país e no mundo. A desigualdade é bem maior. Tanto é que as mulheres recebem muito menos do que o homem negro e a mulher branca. Então não teria sentido para ser uma Marcha geral. Trata-se de um processo para chamar a atenção.  Gostei da Marcha e ela deu o recado que precisava dar”, avaliou Osvaldo Sérgio Mendes.

 

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