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quinta-feira, julho 30, 2026
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População do Rio de Janeiro é pega de surpresa por ciclone extratropical

Sem que houvesse qualquer aviso das autoridades sobre a aproximação do ciclone extratropical que se abateu nesta quarta-feira (29/7) sobre o Rio de Janeiro, a população foi pega de surpresa pelo caos que se instalou na capital e em todo o estado. Ventos de mais de 100 quilômetros por hora açoitaram a Região Metropolitana da cidade, desde as 15h30. Às 15h57, provocaram o desligamento das redes de distribuição e transmissão, afetando o Sistema Interligado Nacional (SIN) na área do Rio de Janeiro, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Os ciclones recebem nomes diferentes conforme a forma como se desenvolvem. Os tropicais nascem sobre águas oceânicas quentes, enquanto os extratropicais se formam em regiões de contraste entre massas de ar frio e quente — exatamente o tipo de sistema que costuma influenciar o tempo no Sul e no Sudeste do Brasil.

A situação que já era de surpresa e medo, piorou com a falta de energia elétrica, interrompendo o trabalho e impedindo que as pessoas voltassem para as suas residências. A pane na rede elétrica interrompeu o funcionamento do metrô. Centenas de pessoas ficaram presas em vagões. Também pararam de funcionar os trens; ônibus circulavam em número reduzido, e por rotas alternativas em vários pontos da cidade devido à queda de dezenas de árvores. Ficou precário ainda o contato com aplicativos de transporte; e os táxis não paravam.

Ciclone chegando ao Rio de Janeiro. Foto amadora.

Fenômeno pode se repetir com mais intensidade – Maria Clara Sassaki, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP), avaliou que a tendência é fenômenos como o de quarta-feira se ampliarem. “Foram eventos muito severos, associados a uma atmosfera mais aquecida. Este tipo de tempestade que vimos no Sudeste é muito característica de verão, e ainda estamos no inverno (21/6 a 22/9). Tivemos uma frente pré-frontal com temperaturas de até 34 graus em várias cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Quando a frente fria que veio do mar encontrou esta temperatura elevada, provocou estas rajadas de vento muito intensas”, explicou.

E acrescentou: “Esta é uma das consequências do aquecimento global e do El Niño, que está num nível moderado de intensidade. Ainda não é um El Niño forte. Mas as projeções climáticas indicam que ele vai aumentar de intensidade atingindo o ápice entre a primavera e o verão. Ainda há espaço para uma atmosfera ainda mais aquecida até o fim do ano”, adiantou.

Momentos de tensão na sede do Sindicato – A sede do Sindsprev/RJ foi pouco afetada pela forte ventania. O administrador do Sindicato, Cleber Mello, contou que foram momentos de tensão. “Por volta das 16 horas, apagaram as luzes. Achávamos que era um problema no Sindicato. Fomos lá fora e vimos que tinha acontecido a mesma coisa em toda a rua Joaquim Silva. Era muita ventania. As pessoas se encostavam nas paredes das casas com medo de serem atingidas por uma telha, um galho, uma cadeira mais leve. Os bares foram recolhendo mesas e cadeiras”, lembrou.

Acrescentou que escureceu de repente. “De cinco em cinco minutos passava aquela rajada de vento, e as árvores tombavam. Fomos dar uma olhada em toda a sede do Sindicato e, de repente, uma rajada veio por baixo da porta de vidro e derrubou o quadro com aquela foto histórica (de uma passeata de servidores no Centro do Rio). Derrubou o quadro por baixo; ele caiu no chão e espatifou o vidro. Todos estavam assustados. E tudo isso acontecendo com a sede sem luz. O vento forte batia nas janelas, fazia barulho, mas não chegaram a quebrar. Foi um susto enorme”, contou.

“Mesmo hoje (quinta-feira, 30/7) alguns locais ainda estavam sem luz no Centro da Cidade. Uma parte de Santa Tereza não tem luz. Árvores caíram, como aconteceu na Rua do Riachuelo. Caiu em cima de um trailer, em frente à Caixa Econômica”, disse. A secretária da Administração do Sindsprev/RJ, Josi Oliveira, disse que chegou em casa e a sua cadelinha, Lua, estava refugiada ao lado de uma parte ao lado do armário, tremendo, com medo do barulho do vento forte nas janelas. “Estava desesperada, sozinha em casa”, lamentou.

Sem aviso prévio das autoridades – O fornecimento de energia só foi restabelecido às 17h35. Em contato com o Sindsprev/RJ, o jornalista Henrique Acker contou que estava na rua quando começaram as fortes rajadas de vento. “Às 16h30 verifiquei que o tempo estava fechando demais, com muitas nuvens pesadas, mas não havia chuva, só muito vento, que levantava tudo pelo caminho. Muita poeira”, relatou.

Lembrou que, no Rio de Janeiro, há um centro de dados da Prefeitura, na Cidade Nova, com todas as informações sobre o clima e cidade. “O governo do estado também recebe as informações em tempo real da meteorologia, mas o primeiro comunicado da Prefeitura só saiu às 16h50, dizendo que o município tinha entrado em estágio 2, devido a ventos muito fortes, devendo se intensificar. Simplesmente não recebi, nem nenhum cidadão, um comunicado que passaria pelo Rio de Janeiro, um ciclone extratropical, que atingiu mais cedo São Paulo, vindo do Sul do País”, criticou.

Para o jornalista, do ponto de vista da Comunicação é um fato vergonhoso. “Estou passando agora (quarta, por volta das 18 hortas) em frente ao VLT e está tudo parado; com o metrô operando à meia-boca. Os trens parados e os ônibus trafegando em número reduzido. Os pontos de ônibus lotados. Ou seja, a população está jogada às traças”, opinou. “Estamos às vésperas de um processo eleitoral e os políticos cuidando de suas campanhas. Nem o governo do estado nem a Prefeitura se preocuparam com as pessoas. Se tivessem informado, daria tempo das pessoas se prepararem”, acrescentou.

Aquecimento global e clima caótico – O que aconteceu no Rio de Janeiro e em outros estados, como São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com fenômenos diferentes em outros pontos do mundo, como temperaturas recordes (chegando a 40 graus) os incêndios na Austrália e França, são consequência do aquecimento global, que os governos e fortes grupos econômicos não se preocupam em evitar que prossiga. Estas ocorrências são parte do que os cientistas classificam como clima caótico, um desequilíbrio severo do clima na Terra, impulsionado principalmente pela queima de combustíveis fósseis.

Árvore caída em Quintino. Foto amadora da internet.

Segundo o relatório sobre o Estado do Clima Global 2025, da Organização Meteorológica Mundial (OMM), o clima da Terra está mais desequilibrado do que em qualquer outro momento da história registrada, uma vez que as concentrações de gases de efeito estufa, impulsionam o aquecimento contínuo da atmosfera e dos oceanos. Lançado em 23 de março de 2026, o relatório alerta que mudanças rápidas e em grande escala ocorreram em poucas décadas, mas terão repercussões prejudiciais por centenas — e potencialmente milhares — de anos.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, afirmou que a Terra está sendo empurrada para além de seus limites e que todos os indicadores do clima estão emitindo alertas vermelhos: “A humanidade acabou de atravessar os onze anos mais quentes de que há registro. Quando a história se repete onze vezes, deixa de ser uma coincidência. É um alerta para a ação”.

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