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quarta-feira, setembro 23, 2026
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Flávio Bolsonaro enviou emenda de quase R$ 200 mil para miliciano envolvido no assassinato de Marielle Franco

A cobertura da mídia brasileira sobre as eleições deste ano se voltou para a informação, conhecida nesta terça-feira (22/9), de que a Polícia Federal descobriu que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato a presidente, enviou através de uma emenda parlamentar, R$ 199.999,79, para o Instituto de Formação Profissional Carlos Procópio, a pedido de Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”. Miliciano e ex-policial militar – condenado em 25 de fevereiro de 2026, por participar da organização criminosa responsável pelo assassinato, em 2018, da ex-vereadora Marielle Franco, do PSOL, e de seu motorista Anderson Gomes –, “Peixe” entrou em contato diversas vezes com o gabinete do senador, para tratar da liberação do dinheiro com a assessora parlamentar de Flávio, Maria de Fátima Bezerra Castro.

A campanha de Flávio confirmou a emenda e afirmou que os recursos foram destinados dentro da legislação vigente: “A emenda foi destinada dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte. A entidade executora apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados. A responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei”, diz a nota.

Nas conversas, obtidas pela PF do celular do ex-policial, durante a Operação Emendatio, ambos se tratavam como amigos. A primeira da série de mensagens (reproduzidas pela Revista Piauí, publicação que descobriu os fatos, em primeira mão, juntamente com o jornal Estado de S. Paulo), recuperada pela PF é de 24 de outubro de 2023. Às 14h43, “Peixe” escreveu: “Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar.” No celular de “Peixe”, Fátima aparece como “Fafá de Flavio Bolsonaro” identificada nos autos da PET (petição da PF) 15749 como Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora parlamentar lotada no gabinete do senador em Brasília.

Segundo a revista, quatro minutos depois, ela respondeu: “Manda a solicitação meu amigo.” Logo em seguida, ela explicou que ele deve enviar “um e-mail ou um ofício”. Às 15h56, Peixe encaminha um documento intitulado “Ofício nº 002-2023 – Senador Flávio Bolsonaro.pdf”. Às 16h41, ela pergunta: “quando vem a brasilia?” Ele responde que vai em novembro, e emenda: “será que consegue nos ajudar com alguma coisa?”

Ainda segundo a revista, a investigação da PF revela que dois dias depois, foi Fátima quem tomou a iniciativa. Às 12h33 de 26 de outubro, escreveu: “O deputado brazão, vc ainda tá com ele?” Peixe respondeu numa palavra: “Positivo.”

Nove minutos mais tarde, Fafá orientou: “Vc vai tbm e já reforça o pedido com senador.” Em seguida, colou no WhatsApp o convite institucional do gabinete para uma cerimônia de entrega de 396 coletes balísticos à Polícia Militar do Rio, com os telefones do gabinete ao final. E completou: “Leva o deputado.” Naquela época, Chiquinho Brazão era deputado federal. Faltavam cinco meses para sua prisão.

O relatório da investigação destaca justamente essa sequência: o convite permitiria que Peixe reforçasse pessoalmente o pedido de recursos e, “poucos dias” depois, veio a destinação da emenda parlamentar. Em 30 de outubro, Peixe cobrou: “Boa tarde, tudo bem, tem notícias boas?”

Uma semana depois, às 9h56 de 6 de novembro, ele insistiu, agora com mais precisão: “Bom dia, amiga não esquece do Ifop não, vê se o Senador consegue nos agraciar, para não terminar o nosso projeto.” A resposta chega às 10h13, e são duas palavras: “Pode deixar.”

O Ifop é o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio, com sede na Taquara. Em 29 de novembro de 2023, 23 dias depois dessa resposta, o instituto recebeu R$ 199.999,79. O dinheiro veio da Emenda Parlamentar nº 92190012-2023, de autoria de Flávio Bolsonaro, cujo valor global é de R$ 599.128. Os outros R$ 399.128 foram por “Emenda Pix” ao município de Barra do Piraí.

Dinheiro desviado – Uma auditoria técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) e da PF descobriu que o dinheiro foi integralmente desviado. O montante acabou repassado para um escritório de advocacia pertencente aos próprios donos da entidade por meio de contratos de fachada e simulação de concorrência.

O TCU investigou e descobriu, entre outras irregularidades, que o contrato de coordenação do projeto esportivo, firmado com um escritório de advocacia cujo responsável, José Rômulo Oliveira Alves, era o próprio presidente do Ifop. A assinatura dele consta nos dois lados do papel, como representante do contratante e do contratado. A atividade econômica registrada pela empresa na Receita Federal é a prestação de serviços advocatícios, sem relação com coordenação de projeto esportivo.

O Ifop, registra o relatório do TCU, limitou-se a distribuir o valor total recebido entre fornecedores e prestadores, sem demonstrar qualquer preocupação com economia ou eficiência na aplicação dos recursos públicos.

Trajetória do “Peixe” – Em uma matéria, a Revista Fórum explica como um operador do crime organizado obteve livre trânsito e capacidade de barganha junto ao gabinete de um senador da República, contando a trajetória de Robson Calixto Fonseca no ecossistema do crime de “colarinho branco” do Rio de Janeiro.

A Fórum lembra que o ex-policial militar, miliciano e operador político-financeiro, “Peixe” foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no início de 2026 a uma pena de nove anos de prisão em regime fechado. A Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal o classificaram como o braço operacional e o principal elo político da organização criminosa armada chefiada pelos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, responsável pelo assassinato de Marielle. Sua marca registrada sempre foi a capacidade de circular com extrema facilidade entre as forças de segurança, as estruturas formais do Estado e as lideranças paramilitares da Zona Oeste.

A revista ressalta que foi nas comunidades de Rio das Pedras e da Taquara, consideradas o berço do milicianismo fluminense, que “Peixe” consolidou seu poder. Acrescenta que longe de ser um mero “homem de frente” focado no confronto armado, exercia funções estratégicas de logística, finanças e articulação.

Relatórios de investigação e delações premiadas, como a do ex-PM Ronnie Lessa (o executor confesso de Marielle), revelam que “Peixe” comandava o mercado imobiliário clandestino em Jacarepaguá, chefiando esquemas de grilagem de terras, loteamentos irregulares e construções ilegais cujos lucros irrigavam a estrutura da milícia, além de gerenciar redes de extorsão contra comerciantes e agiotagem. No plano bélico, Lessa o apontou como o intermediário original na busca por armamentos pesados, incluindo a submetralhadora HK MP5 utilizada nos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018.

Relação estreita com a milícia – Como vem sendo divulgado há anos pela mídia, Flávio Bolsonaro sempre teve uma relação muito próxima com a milícia do Rio de Janeiro. Em pronunciamentos defendia este tipo de organização tendo homenageado, quando era deputado estadual, o comandante do chamado “Escritório do Crime”, Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope e ex-miliciano, com a Medalha Tiradentes, morto a tiros pela polícia da Bahia, em 9 de fevereiro de 2020. No seu gabinete de deputado empregava a mãe e a filha de Adriano.

A investigação de agora da PF retoma esta ligação. A corporação descobriu que uma das entidades investigadas recebeu R$ 199 mil de emenda destinada pelo senador. A negociação do envio de recursos ao Ifop se deu entre a assessora de Flávio e Peixe, que já foi assessor de Domingos Brazão no TCE fluminense e foi condenado por integrar a organização criminosa responsável pelo assassinato de Marielle.

Os irmãos Brazão foram condenados como mandantes. Ronie Lessa, como executor, e Robson Calixto, o “Peixe”, como o braço operacional e o principal elo político da organização criminosa responsável pelo assassinato de Marielle, tendo sido o fornecedor do fuzil usado por Lessa para matar a ex-vereadora do PSOL.

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