Marcos Aurélio Gomes Ribeiro
Professor de História Contemporânea do Brasil
Passados 62 anos do golpe empresarial-militar de 1964, o Brasil ainda convive com as marcas profundas de uma ruptura que não foi apenas institucional, mas também social e histórica. O golpe não surgiu como um ato isolado, mas como resultado de uma articulação entre setores das Forças Armadas, elites econômicas e interesses internacionais, comprometidos com a interrupção de um projeto de reformas que ampliava direitos e tensionava privilégios.
Como afirmo em 1964, A Conspiração Silenciosa, “a ruptura democrática não foi um desvio repentino, mas o desfecho de uma construção paciente, financiada e legitimada por setores que temiam perder o controle sobre o Estado e a sociedade”. Essa leitura dialoga com o historiador Carlos Fico, que destaca o caráter civil-militar do golpe, evidenciando o papel ativo de empresários e grupos de mídia na sua consolidação.
A ditadura instaurada a partir de 1964 não apenas suprimiu liberdades políticas, mas reorganizou o país sob a lógica da repressão e da exclusão. Daniel Aarão Reis observa que o regime construiu mecanismos sofisticados de controle social, ao mesmo tempo em que buscava legitimação por meio do discurso da ordem e do desenvolvimento. Já Rodrigo de Sá Pato chama atenção para o uso sistemático da violência como instrumento político, revelando que a repressão foi parte estruturante do regime, e não um excesso circunstancial.
Em meu livro, sustento que “a história das ditaduras é também a história das classes que delas se beneficiam — ainda que a memória pública insista em esquecê-las”. Essa reflexão nos obriga a encarar o passado sem ilusões, compreendendo que a democracia brasileira foi reconstruída sobre bases frágeis, sem que houvesse uma ruptura completa com as estruturas autoritárias herdadas daquele período.
As consequências do golpe de 1964 ainda se fazem presentes: na persistência de desigualdades, na violência institucional e nas recorrentes ameaças ao Estado democrático de direito. Lembrar esse episódio não é apenas um exercício de memória, mas um compromisso com o presente. Afinal, como também afirmo na obra, “sem enfrentar as raízes do autoritarismo, a democracia seguirá sendo uma promessa constantemente adiada”.
Relembrar os 62 anos do golpe é, portanto, reafirmar a necessidade de vigilância, organização e compromisso coletivo com a democracia — não como um dado garantido, mas como uma construção histórica permanente, que exige luta, consciência e memória.
Autor do livro “1964: A Conspiração Silenciosa”, que será lançado este mês. Pré-venda: na Amazon e no site da Editora Appris



