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sexta-feira, março 6, 2026
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Para acabar com o racismo é preciso ampliar na sociedade o debate sobre os prejuízos que ele causa

No Mês da Consciência Negra, que marca em novembro a morte do líder Zumbi dos Palmares (20/11), vários eventos são organizados para discutir a origem do racismo como instrumento de dominação do Estado branco sobre a população negra e as iniciativas que devem ser tomadas para acabar com este sistema opressor. Nesta quinta-feira (27/11), a Secretaria de Gênero, Raça e Etnia do Sindsprev/RJ convidou a ex-vereadora Mônica Cunha, do PSOL, e o professor de História, Sandro Moron, para uma roda de conversa no auditório do Sindicato, para falar sobre o tema.

Entre os muitos pontos em comum entre ambos está a avaliação de que para acabar com o racismo é preciso ampliar o debate na sociedade sobre a origem escravocrata deste esquema de dominação. Mantido até hoje, tem consequências graves e desumanas impostas à população negra, sob todas as formas de discriminação, que passam de geração em geração, começando pela imposição de um ensino que, com raras exceções, mostra o negro sempre como subalterno, marginal e estranho ao convívio social. Apontaram como o mais tenebroso instrumento deste sistema, o cerco repressivo às favelas, com invasões armadas, verdadeiros massacres, que matam jovens negros.

“Tudo na nossa vida, seja na educação, na cultura, na política tem a ver com o racismo. Basta ver que a população negra é maioria no Brasil, representando 54% do total. E mesmo assim é a que menos tem oportunidades nos vários setores e representação nos órgãos de decisão. Vive abaixo da linha da pobreza, recebe os menores salários. Por mais que tenhamos hoje uma juventude negra bastante aguerrida, com número significativo dentro das universidades, concluindo o curso superior, mestrado e doutorado, ainda assim, não consegue trabalho com salários compatíveis com a sua formação”, analisou Monica Cunha.

A ex-vereadora Monica Cunha: “Temos que lutar pelo direito de bem viver e reparação pelo que passou o povo negro”. Foto Mayara Alves.

Frisou que a população jovem negra é vista pela polícia como bandido. “A maioria deste segmento populacional é morador das favelas, onde o Estado faz suas operações como parte de uma política genocida: em menos de um mês tivemos mais de 100 mortos em duas comunidades do Rio de Janeiro. Temos que lutar pelo direito de bem viver e ter uma reparação pelo que se passa e se passou com o povo negro, que são duas das mais importantes reivindicações da Marcha das Mulheres Negras, que aconteceu nesta quarta-feira (26/11), em Brasília”, ressaltou.

Citou seu próprio caso, que perdeu o filho, morto em uma unidade para menores infratores. “Fiz do luto a minha luta, passando a ser ativista do combate ao racismo e pelo fim da violência racista”, disse. A ex-vereadora criticou a desigualdade entre brancos e negros e classificou como mentirosa a abolição da escravatura.

“O que houve foi uma luta do povo negro que conseguiu acabar com a escravidão, o que não significou que passamos a ser livres, já que continuamos sob um regime racista, com prática escravocrata. Tivemos no estado do Rio, nos últimos tempos, todos os governadores presos por corrupção. E todos implantaram uma política de segurança racista, de morte, e que acaba prejudicando toda a população do estado. Já o governo federal avançou um pouco com as cotas, mas ainda é muito pouco”, avaliou. Argumentou que os brancos têm privilégios, na comparação com os negros. “Enquanto a população branca não entender isso, nós vamos continuar vivendo assim. Nós queremos ter direito à igualdade, os brancos querem manter seus privilégios. Estes privilégios levam o meu povo a ter um dia o corpo estirado no chão”, lamentou.

A diretora do Sindsprev/RJ, Roseane Vilela se emociona ao relatar caso do filho preso pela polícia, por ser negro. “Depois de sete meses foi declarada a sua inocência”, contou. Foto: Mayara Alves.

Ao falar na roda de conversa sobre o tema principal, “Consciência Negra”, o professor Sandro Moron, lembrou do significado da palavra. “Trata-se do conhecimento que se tem de si mesmo. Então, se a gente conhece a nossa história é capaz de fazer uma avaliação deste processo infraestruturado, por exemplo, na educação básica. Há pouquíssimo tempo na história dos povos africanos no Brasil, o homem negro era visto unicamente como escravo, brutalizado, animalizado, quando houve também, ao longo da nossa história, negros escolarizados, preparados. Mas a representação do negro aparecia sempre nos livros como um animal, acorrentado e despido, como forma de desenvolvimento desta cultura europeia que a gente vive no Brasil. Foram mais de 5 milhões de negros trazidos para cá e escravizados. Esta era uma forma de dominar este povo: destruir o que une esse povo, a sua cultura. Isso só começa a ser rompido por homens como José do Patrocínio, Luiz Gama e o próprio Zumbi, que se rebelaram ao longo da história contra este processo colonialista”, conta.

O professor Moron disse que não encontrar solução para a exclusão das favelas é política de Estado. Foto: Mayara Alves.

“Os que aparecem nos livros são homens brancos, como Getúlio Vargas, Prudente de Moraes”, disse. “O objetivo maior é manter a população negra subjugada. Se você dá conhecimento, você liberta. Com o que um menino negro vai se identificar se quase não são citados representantes negros na história?”, questionou. Estes fatos levaram os negros a modificar sua forma de vestir e até se pentear, alisando os cabelos, exemplificou, o que vem deixando de acontecer.

Disse que no que se refere a ser um local de resistência é correta a analogia entre as favelas e os quilombos. Mas acrescentou que os últimos eram verdadeiras cidades, com uma organização complexa, com hierarquização do trabalho, organização geográfica e estrutural muito bem definida. E, neste aspecto, o desordenamento que o Estado impõe às favelas, torna ambos muito diferentes.

“Se a favelas tivessem a organização de um quilombo teriam a capacidade de chamar o governante para dentro da comunidade para discutir os problemas locais. Muitos destes gestores sequer sabem o que tem lá dentro, qual a sua realidade e mesmo assim, querem ter uma política para estas favelas”, disse.

Segundo o professor para acabar com a desigualdade entre pretos e brancos, primeiramente deve haver uma assistência imediata do Estado. “A reparação deveria começar por aí. As cotas são um avanço. Não adianta o Estado entrar com um combate ostensivo à violência, se o que vai retirar a população da favela à margem da sociedade são boas escolas com segurança e aprendizado, onde a criança vai se alimentar, aprender e brincar”.

Para o professor, mais que um erro a segregação racial é uma política de Estado. “Uma política que visa manter este povo sob controle. Botam uma pequena creche, uma escolinha, somente para enfeitar, sem muita condição de atender às necessidades da população local”, argumentou.

Ao fundo, palestrantes falam na roda de conversa e lembram da importância de Zumbi dos Palmares para a luta do povo negro. Foto: Mayara Alves.

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