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sexta-feira, março 6, 2026
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Documento do Confenasps de 1992 já apontava causas e soluções para a questão climática

Documento aprovado em 1992 pelo Congresso Nacional da Federação Nacional (Fenasps), já fazia o diagnóstico sobre o desequilíbrio climático e apontava as soluções para que o processo de destruição da natureza não avançasse mais. De lá para cá, foram realizadas inúmeras rodadas de conversações entre os países, para tentar minimizar os efeitos devastadoras que este processo antiecológico vinha tendo sobre a vida na Terra. A partir da Eco-92, foram feitas diversas rodadas que chegaram a acordos nunca cumpridos, entre elas, as COPs (Conferências das Partes da Organização das Nações Unidas), da qual participam representantes dos governos de quase todo o mundo, corporaçãoes empresariais e parte das entidades representativas do movimento social.

Descontentes com a falta de ações concretas para salvar o planeta, entidades do movimento social (entre estas, as das nações indígenas, quilombolas, do movimento sem terra, movimento de mulheres, movimento negro e do movimento sindical) passaram a organizar as chamadas Cúpulas dos Povos, sempre realizadas paralelamente às COPs, o que acontece também agora na COP 30, em Belém do Pará, este ano. Convidado por entidades representativas das populações ribeirinhas do Pará, Crispim Wanderley, que participa da coordenação do Fórum de Qualidade de Vida e Saúde, critica a falta de açôes concretas das COPs, classificando-as como uma falácia, visão compartilhada pelos participantes da Cúpula dos Povos que têm se queixado ao longo dos anos, da falta de representação do moviento social nas Conferências das Partes.

“Uma prova disto, é que nada mudou com a série de reuniões dos governos e corporações mundiais ao longo de décadas. Para se ter uma ideia, o documento aprovado no Congresso da Fenasps (Confenasps), em 1992, já citava uma série de eventos que provocavam o desequilíbrio climático, cobrava e propunha soluções e de lá para cá o desequilíbrio climático só piorou”, afirmou. O documento aprovado no Confenasps frisava que “no contexto amazônico, o conflito fundiário vincula-se não só ao uso agropecuário do solo mas igualmente à exploração do subsolo por grandes projetos de mineração (do qual a garimpagem é um subcapítulo em microescala), envolvendo a intervenção de grandes consórcios nacionais-internacionais, com a interveniência do Estado, realizando investimentos com recursos públicos para os lucros privados do monopólio e fazendo sua política orgânica, a violência do capital, contra famílias camponesas e comunidades indígenas inteiras, ontem, no Sul-Sudeste, como hoje na Amazônia, o Estado reflete a lógica do desenvolvimento do capitalismo”.

Tentativa de avanço – A Cúpula dos Povos começou no dia 12 deste mês e terminará neste domingo, 16, reunindo 1,2 mil participantes de movimentos sociais de todo o mundo, em paralelo à Conferência das Partes (COP 30), que reúne governos de todo o mundo, representantes de corporações e convidados da sociedade civil. Crispim citou como exemplo da contradição das COPs a autorização concedida pelo governo do estado do Pará, anfitrião do encontro internacional do clima, para a construção, de espigões à beira do rio Pará, que banha a cidade de Belém. “O texto da Fenasps foi feito a partir de estudos da Universidade Federal do Pará sobre ecologia e saúde no trabalho. Nele citávamos uma série de eventos que afetavam os povos da Amazônia e do mundo. Nestas últimas três décadas não foram tomadas decisões para reverter o que já denunciávamos lá atrás. E naquele texto já falávamos da poluição pelo carbono. Hoje, quando assistimos à COP 30, vemos que repetem a proposta da compra de carbono no sul global, prevista nos acordos internacionais, dentro do contexto dos interesses dos gestores dos vários países e das corporações internacionais: compram a captura de carbono produzido pelo sul global, mas invadem territórios do mesmo sul, para retirar as riquezas da região, principalmente minerais”, denunciou.

A Cúpula dos Povos tem sido construída há mais de dois anos, a partir dos esforços das próprias organizações. Foto: Thaigon Arapiun.

Acrescentou que “a COP está linda e muito organizada, ninguém pode reclamar”, mas ressaltou que os gestores dos países “perderam a noção daquilo que é do povo, o que tem que ser feito para garantir a qualidade de vida”. Citou novamente o governo do Pará, que fez um acordo com a empresa Hydro (a maior produtora de alumina, a segunda depois da China) que é uma das maiores destruidoras de territórios no Pará, junto com a Vale e o agronegócio. Pelo acordo o governo do estado fez concessão de novas áreas para a Hydro. Isso é criminoso”, afirmou.

Lula critica nações ricas – Explicou que quando diz que a COP pode não ter resultados que atendam aos povos, porque, como todas as outras, desde a Eco-92, passando pelos acordos e cartas internacionais, como o Acordo de Paris, nada do que é aprovado é cumprido. “As grandes corporações não cumprem e os Estados do Norte Global também não. Uma fala do presidente Lula resume bem o que estou dizendo, e que a Cúpula dos Povos denuncia: disse que o norte global gasta muito mais em guerras, do que com a preservação do mundo e de todos os seres vivos e a qualidade de vida das pessoas”, afirmou Crispim. “A maior parte do PIB Mundial foi parar nas mãos de 1% da população do mundo”, frisou.

“Barqueata” pelo Rio Pará, abriu a Cúpula dos Povos. Foto: Agência Brasil.

Parcerria Brasil-China – Disse que uma mudança está ocorrendo na China, “que hoje é um país capitalista monopolista de Estado e que trabalha novas tecnologias, inclusive, para desentropizar o seu território e não se torna tão agressiva com os outros territórios. Faz uso, sim, de riquezas de outros países, mas com parceria”, afirmou. “A vantagem que tivemos agora com essa relação com a China é que se consegue ter um debate mundial sobre o uso de novas tecnologias para o bem-viver da população”, avaliou.

Crispim fez uma reflexão sobre as entidades sindicais que focam a sua ação na questão economicista, quando poderiam contribuir mais para a preservação dos territórios. “A preservação dos territórios, como aponta Milton Santos, é real. O que falamos de territórios e de economia solidária é real. São os territórios que conseguem fazer a sua autogestão para a melhor qualidade de vida. Enquanto isso as entidades sindicais, incluído o Sindsprev/RJ, as federações e outros, visam apenas a relação direta, quando deveriam trabalhar num território e ter autodeterminação nos territórios onde está a maioria dos seus sindicalizados e fazer uma ação solidária e efetiva, não o fazem. Para discutir o capital hoje, que é um capital assassino, genocida, necropolítico, nós precisamos rever os nossos valores também, enquanto entidades sindicais, enquanto seres humanos individualmente, para a ação coletiva”, defendeu.

Finalizou dizendo que a Cúpula dos Povos deste ano, assumiu uma proporção maior porque está na Amazônia. “A Cúpula está combatendo diretamente o ataque ao meio ambiente e com ações diretas da população, através de suas organizações, contra o governo do estado, contra o governo nacional e contra a organização mundial dos países e seus gestores que são os serviçais do grande capital”, avaliou. “É necessário uma ação individual nos territórios para gerar uma ação coletiva que amenize pelo menos a crise, que não é mais uma crise pontual, aqui e ali, é uma crise planetária do clima que está afetando a todos. Isso, compreendendo que é preciso fazer esta política sem levar em consideração as grandes corporações reunidas na CPO 30, que não querem a solução dessa crise climática, só querem tirar a riqueza dos territórios, destruir e sugar a nossa vida”, apontou.

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