A Secretaria de Gênero, Raça e Etnia do Sindsprev-RJ promoveu, na noite da última sexta-feira (29 de agosto), o relançamento dos livros ‘Branquitude e Superioridade Racial’ e ‘Coisa de Brancos’. O relançamento aconteceu no auditório nobre do sindicato (rua Joaquim Silva, 98 – Lapa), com presença da autora, Graziela de Oliveira.
“Agradeço ao Sindsprev-RJ e me sinto honrada de estar aqui porque tenho muita necessidade de expressar o que escrevo, que é feito com indignação. No livro ‘Branquitude e Superioridade Racial’, eu mostro que branquitude é um sistema de poder que dá privilégio aos brancos. A branquitude não é uniforme porque nem todos os brancos têm os mesmos direitos, pois os privilégios são principalmente os da burguesia branca. Não são os dos trabalhadores e das trabalhadoras brancas. Na sociedade democrática, os direitos infelizmente não são iguais, incluindo o direito de se movimentar. Os negros não podem se movimentar nos espaços dos brancos. Quando uma pessoa negra entra num shopping center, por exemplo, esta pessoa é perseguida por seguranças, que pensam estar ela ali para roubar alguma coisa. Branquitude, portanto, é parte de um sistema de privilégios, um sistema de poder. Nesse sentido, o movimento negro deve combater isto, fazendo alianças também com brancos que se dispõem a combater o racismo”, explicou.
Graziela também falou sobre a outra obra relançada na mesma noite, o livro ‘Coisa de Branco’, onde ela analisa situações que ensejaram discursos permeados pelo racismo. “Os comportamentos dos negros são em geral estereotipados pela afirmação de que ‘são coisa de negros’. Mas pessoas brancas não são classificadas com frases correspondentes, sobretudo quando cometem crimes. Na Lava-Jato, por exemplo, não foram pessoas negras as que cometeram os crimes relatados naquela operação. Afinal, pessoas negras não estavam nas posições de poder que permitiram o cometimento daqueles crimes de corrupção. No entanto, quando os autores dos crimes foram presos, em nenhum momento as narrativas classificaram os crimes como ‘coisas de brancos’”, frisou.

Em seguida às breves falas de Graziela de Oliveira, o Sindsprev-RJ abriu espaço para perguntas do plenário, que versaram sobre temas como as diferenças entre o racismo praticado nos EUA e no Brasil; o não cumprimento da Lei 10.639/2003 — que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em todas as escolas da Educação Básica do país —; e a necessidade de o Estado brasileiro investir em educação na perspectiva antirracista.
Professor de história, funcionário do Sindsprev-RJ e militante contra o racismo, Júlio Cesar Condaque questionou a retirada pelo governo Lula dos investimentos na formação de professores capazes de se qualificar para implementar as diretrizes da lei 10.639. “Passados mais de 20 anos, a lei não foi efetivamente implementada. Da mesma forma, livros com uma nova visão historiográfica, uma visão crítica, não são distribuídos, e o pior é que nada é fiscalizado pelo MEC”, disse.
Dirigente da Secretaria de Gênero, Raça e Etnia, Osvaldo Mendes também comentou sobre o não cumprimento de dispositivos antirracistas na legislação brasileira. “O Estado deve vir da Nação, e não o contrário. Por isso é que a Lei 10.639 não está sendo cumprida, pois o Estado brasileiro, na sua forma atual, é um Estado que não nos representa como povo negro, um Estado que não nos representa enquanto nação. Precisamos ter um projeto de Nação diferente do atual”, afirmou.
Em seguida ao relançamento das duas obras e do breve debate, Graziela de Oliveira autografou exemplares dos livros e conversou com as pessoas que compareceram ao Sindsprev-RJ.
Professora aposentada da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Graziela de Oliveira é doutora em Ciências Sociais pela Universität Bielefeld/Alemanha, com pós-doutorado no MIT/Estados Unidos. Também esteve na Universidade de Grenoble, como parte do convênio Capes/Cofecub, e foi coordenadora do convênio UFPB/ Universidade de Manchester (Inglaterra). Outros livros de sua autoria são: ‘Pobreza nos Estados Unidos’ e ‘Orgulho de ser Negro’.



