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sexta-feira, março 6, 2026
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Lotada no HFB, dirigente do Sindsprev/RJ fala dos desafios da luta contra o fatiamento da rede federal

Auxiliar de Enfermagem (em desvio de função) lotada há 19 anos no Hospital Federal de Bonsucesso (HFB), Ivanilda Ferreira Alves (foto) integra a nova diretoria colegiada que, em 8 de janeiro deste ano, foi empossada no Sindsprev-RJ para um mandado até junho de 2026. Nesta semana, ela concedeu entrevista ao Jornal do Sindsprev/RJ Online sobre os desafios e problemas enfrentados pelos trabalhadores e trabalhadoras da rede federal na luta contra o fatiamento.

Sindsprev-RJ – quais são os principais problemas decorrentes do fatiamento da rede federal e de que maneira esses problemas desestruturam o SUS?

Ivanilda Ferreira – a rede federal possui a peculiaridade das atenções terciária e quaternária, atendendo à alta complexidade nos serviços de saúde. Os entes aos quais foram entregues três das unidades federais não possuem o domínio e a qualidade necessários na prestação desses serviços tão urgentes para nossa população. O fatiamento acaba levando à extinção de unidades como o Hospital Universitário Gaffrée e Guinle e o Hospital Federal da Lagoa, que estão na proposta de fusão com outros dois hospitais. O Gafrée seria transformado em clínica da família e seus serviços seriam direcionados para o Hospital Federal dos Servidores. Uma unidade que, com o tempo, deixará de existir, como já vimos acontecer nos hospitais estaduais. No caso da relação entre o Hospital Federal da Lagoa [HFL] com o Instituto Fernandes Figueira, a fusão levará à perda da identidade do HFL, que é a oncologia. A carência desta especialidade afeta gravemente a população, que literalmente morre em filas desumanas.

Sindsprev/RJ – como está a crise do Hospital de Bonsucesso após a entrega da unidade ao Grupo Conceição? Tem havido muitos casos de autoritarismo da gestão?

Ivanilda Ferreira – no Hospital de Bonsucesso, já enfrentávamos uma crise de abastecimento e falta de recursos humanos. Crise que não foi sanada. Colegas relatam falta crescente de insumos básicos, como algodão para banho, diurético, fios de sutura e até equipamentos de proteção individual. Chegaram a disponibilizar máscaras que protegem de doenças como tuberculose, mas com data de validade vencida, colocando profissionais em risco. Quanto ao autoritarismo, apesar de afirmarem que respeitam a organização democrática dos trabalhadores, não é o que acontece. Tivemos uma assembleia solicitada e agendada em auditório por uma funcionária e dirigente sindical, realizada em meio a cenas arbitrárias, com presença inclusive da Polícia Militar. Realizamos a assembleia no pátio, sob chuva e tentativas de impedimento do nosso ato democrático.

Sindsprev-RJ – na sua opinião, além das mobilizações, o que os servidores da rede federal devem fazer para barrar ou impedir a continuidade do fatiamento de hospitais federais?

Ivanilda Ferreira – apesar de toda dificuldade, diante de toda a descrença da população e até de parte dos servidores, acho que devemos continuar com o trabalho de conscientização dos usuários e chamar à responsabilidade os órgãos e autoridades competentes. Esse plano está levando à desassistência da população. Há inclusive o relato de um paciente do Hospital da Lagoa que teve seu tratamento na pneumologia encerrado e foi orientado a procurar uma unidade básica para novo agendamento, com especialista em outra unidade, através da regulação. Este paciente não teve o direito ou a garantia de continuidade de seu tratamento. Foi largado à própria sorte.

Sindsprev-RJ – o presidente Lula foi eleito em 2022 com a promessa de realizar concursos públicos, mas apostou em fatiamentos e parcerias público-privadas. Você acha que isto foi uma traição aos trabalhadores?

Ivanilda Ferreira – a promessa foi de reestruturar hospitais, aumentar os investimentos em recursos humanos, como ocorreu em 2004, quando houve a retomada das unidades que tinham sido municipalizadas. Houve concurso, os hospitais foram abastecidos e retomamos nossos índices de atendimento e qualidade. O Hospital de Bonsucesso chegou a realizar 33 cirurgias eletivas em um dia. Jamais imaginaríamos que essa reestruturação viria agora em forma de entrega da rede federal a outras gestões. Submetendo servidores a situações cruéis nas condições de trabalho, como o racionamento de água potável ocorrido recentemente no Hospital Federal do Andaraí, agora municipalizado. Essa nova realidade está causando evasão de profissionais altamente qualificados. O que mais uma vez impacta na desassistência da população.

Sindsprev/RJ – no seu entendimento, que situações mostram a desvalorização dos trabalhadores e trabalhadoras da rede federal?

Ivanilda Ferreira – em 2022 enfrentamos uma eleição desafiadora. Ao passo que demos o nosso melhor e, mesmo com todas as dificuldades, mostramos resultados, acreditando nas promessas de campanha. Somente o Hospital de Bonsucesso, em 2023, realizou 152.046 consultas e atendimentos, 5.556 cirurgias eletivas e emergenciais em centro cirúrgico e 1.655 cirurgias ambulatoriais. Agora somos acusados de não produzirmos e sermos incompetentes, mas somos servidores e servidoras sem uma política de carreira que nos valorize. Também amargamos o descumprimento de acordos firmados com a nossa categoria e a violação de direitos trabalhistas, como o desvio de função obrigatório. Isso é inaceitável vindo de um governo oriundo da classe trabalhadora. É ainda mais inaceitável quando lembramos que o PT é um partido que participou da luta pela reforma sanitária, da luta pela saúde coletiva e pela criação do SUS. Um partido que hoje parece ter esquecido a sua história.

Sindsprev/RJ – Por que é tão importante que os trabalhadores e trabalhadoras da rede federal se filiem ao Sindsprev/RJ?

Ivanilda Ferreira – a filiação ao Sindsprev-RJ é um ato de luta! Além de fortalecer esse instrumento, reconhece o Sindsprev-RJ como representação legítima da categoria, nos unificando. E a nossa unidade é imprescindível, pois, historicamente, segregar é uma tática para nos enfraquecer. O servidor deve estar unido e atento por valorização e nenhum direito a menos.

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