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sexta-feira, outubro 23, 2026
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Programa de corte de gastos de Flávio pode eliminar 2,2 milhões de empregos, reduzir aposentadorias e salário mínimo

O ajuste fiscal de cerca de R$ 200 bilhões proposto pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), o “tesouraço”, pode eliminar aproximadamente 2,2 milhões de empregos e provocar um impacto negativo equivalente a 1,55% do Produto Interno Bruto (PIB), reduzindo o crescimento econômico previsto para 2027. A estimativa é do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), entidade mantida por sindicatos, que divulga hoje um estudo sobre os possíveis impactos da proposta, a três dias do segundo turno.

Segundo o Dieese, a redução de gastos também diminuiria a massa salarial em R$ 68,7 bilhões e a arrecadação de impostos em R$ 46,8 bilhões em 2027. A queda na receita consumiria cerca de 40% da economia bruta obtida com os cortes, o que, na avaliação do instituto, comprometeria o próprio objetivo fiscal anunciado pela campanha.

Cortes reduzirão verba da saúde, educação e programas sociais – Para o Dieese, o diagnóstico que embasa a proposta está equivocado, pois o crescimento recente da dívida decorreria sobretudo do peso dos juros, e não de descontrole das despesas primárias. A entidade argumenta que despesas com menor efeito multiplicador, como juros da dívida e incentivos fiscais, ficaram fora do ajuste.

O Dieese avalia que esse ajuste exigiria alterações nas vinculações constitucionais, como o piso previdenciário ligado ao salário mínimo, o BPC e os mínimos de saúde e educação, o que explicaria a opção por uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC).

Protesto contra arrocho fiscal em Buenos Aires, no início de outubro. Foto da central sindical CTA.

Como a equipe econômica do candidato ainda não detalhou as medidas, o Dieese partiu da hipótese de congelamento das despesas primárias – fora o pagamento de juros da dívida pública aos bancos credores – em termos reais, corrigidas apenas pela inflação estimada de 4,5%.

O Dieese calcula cortes acumulados de R$ 175,4 bilhões em 18 meses. Ao acrescentar a meta de superávit primário de R$ 18,6 bilhões prevista para 2027, o instituto chega a um esforço fiscal de R$ 194 bilhões, equivalente a aproximadamente 1,5% do PIB.

Cortes na área social foram chamados por Milei de ‘motosserra’ e por Flávio de ‘tesouraço’. Foto: Agência Brasil.

Na ausência de detalhamento sobre quais despesas seriam cortadas, o Dieese construiu uma distribuição hipotética do ajuste, atribuindo 51% às transferências de renda (Previdência, abono salarial, seguro-desemprego e BPC, o Benefício de Prestação Continuada), 17% às despesas com pessoal e 32% às demais despesas.

A composição pesa no resultado. Com base em multiplicadores fiscais calculados pelo Ministério da Fazenda, o estudo considera que cada R$ 1 em transferências de renda gera R$ 2,68 no PIB, contra R$ 0,74 dos gastos com pessoal. Por isso, as transferências responderiam por 79% da perda estimada de R$ 203,1 bilhões na atividade econômica.

Desemprego em massa e recessão econômica – Além do cenário-base de crescimento zero, o Dieese simulou duas trajetórias para a economia brasileira em 2027. No otimista, que usa o crescimento de 2,46% previsto na PLOA, o ajuste reduziria a expansão da economia para 0,91% em 2027. Seriam criados 1,14 milhão de postos de trabalho, abaixo dos 1,33 milhão necessários por ano para absorver o crescimento da população economicamente ativa, o que faria o desemprego subir.

No cenário pessimista, baseado na projeção de 1,4% do Boletim Focus, do Banco Central, o PIB recuaria 0,15%, levando o país à recessão. Haveria perda líquida de cerca de 271 mil vagas e um déficit superior a 1,5 milhão de oportunidades em em relação à demanda por trabalho. A taxa de desocupação poderia chegar a entre 6,5% e 7% já no primeiro ano, e o número de desempregados passaria de 5,8 milhões para 7,4 milhões.

Dívida não se estabilizaria – Segundo os cálculos, o resultado primário no primeiro ano ficaria em torno de R$ 88,7 bilhões, ou 0,7% do PIB, bem abaixo do necessário para estabilizar a relação entre dívida e PIB, meta anunciada pela campanha. O estudo cita relatório de junho da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, segundo o qual seria preciso um superávit de cerca de 2,3% do PIB (R$ 266 bilhões) para estabilizar a dívida no nível de 2025, considerando crescimento de 2% e juros reais de 5% ao ano.

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