O dinheiro que antes era destinado às apostas online pode estar começando a voltar para o consumo de alimentos e produtos básicos pelos milhões de famílias brasileiras. Executivos do Assaí – rede de supermercados – identificaram sinais de melhora nas compras neste quarto trimestre, especialmente em cidades do interior e bairros de menor renda, e avaliam que as restrições às bets podem estar contribuindo para esse movimento.
A percepção foi apresentada pelo CEO da rede, Belmiro Gomes; pelo diretor financeiro, Rafael Sachete; e pela gerente de relações com investidores, Gabrielle Helu, em encontro com analistas do BTG Pactual. Segundo relatório do banco, a empresa vê a possibilidade de as medidas contra as apostas aliviarem parte da pressão sobre o orçamento das famílias.
A avaliação ocorre após um terceiro trimestre difícil para o varejo alimentar, marcado pela perda de poder de compra dos consumidores. Nesse período, as famílias passaram a priorizar produtos mais baratos, comportamento que, segundo os executivos, começa a perder força, embora ainda afete algumas categorias, como a de produtos de limpeza.
Para os analistas do BTG Pactual, o setor de supermercados pode estar entre os primeiros beneficiados caso os consumidores reduzam os gastos com apostas e direcionem parte desses recursos para compras essenciais.
A melhora acontece a partir da decisão corajosa do presidente Lula, que editou uma Medida Provisória estabelecendo a proibição das plataformas de apostas online no Brasil a partir de 25 de setembro. As empresas ficaram impedidas de receber novos depósitos e, desde 6 de outubro, tiveram de retirar sites e aplicativos do ar.
A decisão foi tomada diante da grave situação em que se viram enredadas milhões de famílias endividadas e dependentes emocionalmente das apostas nas bets. A proibição alcança todas as modalidades de apostas, como os cassinos online, o que inclui o “jogo do tigrinho”, e as apostas esportivas de cota fixa (em eventos reais).
Pesquisa confirma melhora – os possíveis efeitos das apostas online sobre o comércio também aparecem em uma pesquisa do Sebrae divulgada em outubro. O levantamento ouviu 1.028 donos de pequenos negócios e mostrou que 33% perceberam redução no poder de compra dos clientes. Outros 26% relataram queda no faturamento que associam ao avanço dos jogos.
Os dados reforçam a preocupação dos comerciantes com a parcela da renda familiar destinada às plataformas de apostas. A pesquisa, porém, não mede quanto desse dinheiro poderá voltar ao comércio após as restrições.

