O Brasil pode ter registrado mais de 2 milhões de mortes relacionadas à covid-19, número cerca de três vezes superior ao total oficial de aproximadamente 720 mil óbitos contabilizados durante a pandemia. A declaração foi feita pela médica e pesquisadora Margareth Dalcolmo, uma das especialistas mais respeitadas do país, na segunda-feira (20/7), durante um ciclo de debates sobre Cinema e Direitos Humanos realizado na Estação Claro Rio, na Zona Sul do Rio de Janeiro, com a exibição do documentário Anatomia do Caos. A informação é do site de notícias Instituto Conhecimento Liberta (ICL).
“720 mil mortes não é verdade. No Brasil, nós tivemos pelo menos três vezes o número registrado oficialmente de mortes por Covid-19”, afirmou a pesquisadora.

O site do ICL lembrou que a pandemia de covid-19 foi marcada pela péssima condução do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Durante a emergência sanitária, a gestão federal adotou medidas contrárias às recomendações sanitárias, como atrasar a compra de vacinas, promover medicamentos sem eficácia comprovada e minimizar a gravidade da doença. O negacionismo da gestão Bolsonaro foi criticado por especialistas, entidades científicas e pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid e é alvo de ação que tramita no Supremo Tribunal federal.
Segundo Dalcolmo, a estimativa considera não apenas as mortes provocadas pela fase aguda da doença, mas também os óbitos decorrentes de complicações e sequelas da infecção, e outros que são decorrentes dos efeitos sobre o sistema de saúde. Afirmou que esse entendimento é respaldado por estudos e especialistas ligados à Organização Mundial da Saúde (OMS).
“Seguramente nós tivemos mais de dois milhões de mortos, seja pela doença aguda naquele momento, seja pelas doenças decorrentes das consequências e das sequelas decorrentes de uma infecção aguda de transmissão respiratória”, disse.

Bolsonaro se negou a combater a doença e fez piada – Jair Bolsonaro se negava a comprar vacinas que eram oferecidas ao Brasil, adiando a proteção das pessoas e deixando de salvar, certamente, milhares de vidas. A história ficou ainda mais escabrosa quando a CPI da Covid começou suas investigações. O governo Bolsonaro dizia não para ofertas sérias de vacina, mas, às escondidas, segundo as investigações, tentava comprar doses superfaturadas e com propina.
Bolsonaro (PL-RJ) ignorou o que as autoridades de saúde diziam e fez pouco caso da pandemia. Foi contra o isolamento social, tentou sabotar o lockdown feito por governadores e classificou a doença como uma ‘gripezinha, um resfriadinho’, dizendo para a população sair de casa e enfrentar a doença “que nem homem”.
Quando o número de pessoas mortas começou a aumentar rapidamente, Bolsonaro fazia piadas. Imitou paciente com falta de ar e afinou, dizendo “Ai, eu estou com Covid, estou com Covid”. Teve outras atitudes, como recomendar que a população tomasse medicamentos que os cientistas provaram não funcionar contra o vírus. Chegou a mandar cloroquina e não tubos de oxigênio para Manaus.
Profissionais de saúde – Até outubro de 2022, um total de 4.500 profissionais da saúde pública e privada morreram no Brasil no auge da pandemia da covid-19, entre março de 2020 a dezembro de 2021. De cada 10, oito eram mulheres (80%). As mortes ocorreram especialmente nos meses em que faltaram equipamentos de proteção individual (EPIs) para esses trabalhadores.
As mortes entre os profissionais brasileiros de saúde se avolumaram mais rapidamente do que o observado na população em geral, e o impacto da doença foi maior entre os trabalhadores com menores salários e mais próximos à linha de frente: auxiliares e técnicos de enfermagem morreram proporcionalmente mais do que enfermeiros, e estes, proporcionalmente, mais do que os médicos. O levantamento foi feito pela Internacional de Serviços Públicos (PSI, Public Services International, da sigla em inglês), pelo estúdio de inteligência de dados Lagom Data, que cruzou dados de fontes oficiais brasileiras.
Veto à indenização aos profissionais da saúde – O ex-presidente também vetou em 17 de março de 2021 o projeto 14.128/21, aprovado pelo Congresso Nacional, que concedia indenização aos profissionais de saúde tornados incapacitados para o trabalho em decorrência da covid-19. O veto foi derrubado pelos parlamentares em 26 de março daquele ano e o projeto virou lei.
O projeto, de autoria dos deputados Reginaldo Lopes (PT-MG) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS), havia sido vetado totalmente por Bolsonaro sob a alegação de que a lei de repasse de recursos para os estados e municípios enfrentarem a pandemia (Lei Complementar nº 173/20) proíbe a concessão de benefícios indenizatórios para agentes públicos. Mas a Câmara derrubou o veto, com isso, a lei resultante previu indenização de R$ 50 mil aos profissionais que ficaram permanentemente incapacitados após a infecção do coronavírus.

