Por Henrique Acker
Tive curiosidade em ouvir as explicações do secretário de segurança do Rio de Janeiro acerca do ocorrido no chamado “Complexo do Alemão”, em 28 de outubro. Afinal, para piorar o resultado da Operação Contenção, nesta madrugada, moradores das comunidades da Penha resgataram cerca de 70 corpos nas matas das encostas dos morros da região.
O secretário Victor dos Santos fez questão de demonstrar firmeza e convicção para a imprensa. Segundo ele, a polícia do Rio foi até ao local para cumprir mandados judiciais de prisão. “Os que se entregaram foram presos, os demais preferiram o confronto”. Santos apresentou um balanço de 105 fuzis e toneladas de drogas apreendidas.
De acordo com a secretaria, foram 119 mortes, das quais quatro de policiais. Os outros 115 foram “neutralizados”, palavra usada pelos porta-vozes das forças armadas de Israel ao se referirem aos palestinos mortos em Gaza. Dentre esses, dezenas de cadáveres foram recolhidos por moradores e expostos numa rua, na Penha.
O secretário ainda alertou que os moradores que recolheram os corpos na mata devem ser processados, por terem descaracterizado os cadáveres, que foram expostos sem roupas de propósito, para evitar que fossem identificados como traficantes.
Victor dos Santos chamou todos os mortos de “narcoterroristas”, numa linguagem que segue os tempos de Donald Trump na Casa Branca. Nada é por acaso, afinal o próprio governador já havia dito que a polícia estaria combatendo o “narcoterrorismo”.
E por falar em Cláudio Castro, eis que ele reapareceu para dar novas declarações, menos de 24 horas depois do massacre. Afirmou que nem ele e nem seus secretários vão responder aos que queiram transformar esse momento numa “batalha política” e cobrou integração nacional das forças de segurança.
Castro disse que todos que queiram se somar no combate à criminalidade serão bem-vindos. “Aos outros, que queiram fazer politicagem, nosso recado é sumam”. Segundo o governador, “ontem ficou claro o apoio da população”, referindo-se à operação policial.
Depois do clima de pânico que se espalhou pela cidade, com a boataria de sempre e a correria que lotou os transportes, antecipando a volta para casa, o Rio amanheceu nesta quarta-feira (29/10) com um ar diferente.
Nas ruas, o que se percebia era um silêncio incomum. Não há dúvida que a maioria da população desaprova a atuação dos traficantes, que atormenta as comunidades. Mas a selvageria da operação policial causou constrangimento, principalmente depois da divulgação dos cerca de 70 corpos encontrados por moradores da comunidade da Penha.]
Nos tempos de repórter, eu levantaria algumas questões ao governador:
1 – O ministro Lewandowski negou ter recebido pedido de apoio do governo do Rio para o combate ao tráfico de drogas. O senhor tem algum documento oficial que comprove o pedido que fez ao governo federal?
2 – Por que o senhor esteve entre os governadores que foram contra a PEC da Segurança, apresentada pelo governo federal para planejar de forma centralizada o combate ao tráfico de drogas e armas no país?
3 – Em que essa operação vai somar para o fim ou o estrangulamento do tráfico no Rio?
4 – Por que em sua primeira declaração o senhor tentou responsabilizar o governo federal por não ter dado o apoio necessário e agora não admite a “politização” desse assunto?
5 – Depois das primeiras notícias a reação da população que trabalha foi de pânico. A volta para casa foi antecipada, mas o que se viu foi um caos, com vias interditadas e linhas de ônibus que saíram de circulação. Que medidas foram tomadas para garantir a normalidade do trânsito e dos transportes na cidade?
E outras ao secretário de segurança:
1 – Qual o critério para se afirmar que uma operação policial foi bem-sucedida, na medida em que o objetivo seria o cumprimento de mandados de prisão e o saldo foi de 119 mortos, inclusive quatro policiais?
2 – Os policiais que participaram da operação portavam câmeras em seus uniformes, como prevê a legislação? Existem imagens? Elas serão liberadas para a sociedade?
3 – O senhor reconhece que os corpos encontrados na mata pelos moradores da região são fruto da ação policial? Se sim, por que os policiais não chamaram peritos e o apoio para a recolha dos cadáveres? Por que esses corpos permaneceram na mata?
4 – De acordo com moradores, vários cadáveres resgatados na mata apresentavam perfurações de balas na nuca e na testa, outros tinham marcas de perfurações profundas produzidas por facas. Isso será apurado? A polícia abrirá inquérito para apurar essas ocorrências?
*Jornalista, analista político e colunista do site de notícias Opinião em Pauta


