“O que aconteceu no Rio de Janeiro foi mais uma chacina, a maior até hoje, cujo alvo principal foi a população negra do Complexo do Alemão e da Penha, que, por falta de opção e da ausência de políticas públicas, moram na favela. A política do Estado é uma política racista de extermínio do povo negro, que nos vê como inimigos”. A denúncia foi feita por Osvaldo Mendes, diretor da Secretaria de Gênero, Raça e Etnia do Sindsprev/RJ, em relação ao que o governo Claudio Castro e a mídia estão chamando de ‘operação policial’.
“O que confirma esta visão, com massacres que se repetem ano após ano, mostrando que é uma política de Estado, é que toda esta gigantesca investida das forças policiais nas comunidades não foi comunicada nem ao governo federal, nem ao Ministério Público, tendo sido uma manobra de cunho midiático, um espetáculo cujos objetivos, além da execução de inocentes, vamos saber mais adiante, talvez envolvendo finalidades eleitoreiras”, alertou o dirigente.

Na terça-feira (28/10), como parte da ‘Operação Contenção’, mais de 2.500 policiais civis e militares e do Batalhão de Operações Especiais (Bope) invadiram o Complexo do Alemão e a favela da Penha. Além de blindados como o Caveirão, foram usados helicópteros. Para especialistas, a operação gerou um grande impacto na capital fluminense e não atingiu o objetivo de conter o crime organizado, pelo contrário, ações como esta apenas aumentam a violência.
Foram mortas mais de 100 pessoas. O ataque policial, causou a reação dos traficantes, interrompendo o trânsito das principais vias da cidade, fechando escolas, postos de saúde e estabelecimentos comerciais.
Para tentar tirar o corpo fora devido à repercussão negativa nacional e até fora do país, Cláudio Castro culpou o governo federal de não ter apoiado a ação. Teve que pedir desculpas após ter sido desmentido pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowsky.

Em entrevista ao programa Revista Rio, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro a professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jacqueline Muniz, classificou a operação como amadora e uma “lambança político-operacional”. Segundo a especialista, foram cometidos erros táticos que vão ao encontro do que está previsto nas próprias instruções normativas de segurança pública.
“Para colocar 2,5 mil policiais, tem que fazer uma previsão de 7,5 mil a 10 mil policiais, porque tem três turnos de trabalho e escala. Isso quer dizer que para fazer esta operação, que eu chamei de uma lambança político-operacional do governador Castro, teve que se retirar o policiamento de 3 milhões a 5 milhões de pessoas na região metropolitana”, diz.
“De um lado, esquentou-se a chapa numa área crítica, não reduziu a capacidade operacional do crime, por outro, viabilizou a morte de policiais, o ferimento de policiais, de cidadãos sem que isso significasse um avanço sobre o crime organizado”, afirmou Jacqueline Muniz.
População na linha de tiro – Para o Instituto Fogo Cruzado, instituição que produz dados e informações sobre violência armada e que compilou informações sobre a ‘Operação Contenção’, ações como esta não combatem de fato o crime organizado. “Combater o crime organizado exige outra lógica. É preciso atacar fluxos financeiros, investigar lavagem de dinheiro, fortalecer corregedorias independentes e combater a corrupção dentro do Estado. Tudo que o Rio de Janeiro não faz há décadas”, afirmou, em nota.
“As polícias do Rio começaram o dia com a Operação Contenção e o que se viu foi parte expressiva da população na linha de tiro e uma cidade inteira parada. Este é o planejamento do governo do estado? Operações como essa mostram a incapacidade do governo estadual de fazer política pública de segurança pública”, explicou a organização.
O Instituto Fogo Cruzado reforça que esta é a maior chacina policial já registrada na história do Rio de Janeiro, superando as tragédias do Jacarezinho (2021) com 28 mortos, e da Vila Cruzeiro (2022) com 24 mortos, chacinas policiais que também ocorreram no governo de Cláudio Castro.


