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sexta-feira, março 6, 2026
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Saiba como será a Cúpula dos Povos, que se realizará em paralelo à COP-30

A Cúpula dos Povos – que se realizará paralelamente à COP 30, a conferência oficial sobre meio ambiente – vai se reunir de quarta a domingo (12 a 16/11), em Belém do Pará. A Cúpula contará com a participação de representantes de mais de 1,2 mil movimentos e organizações do Brasil e do exterior, e será aberta com uma “barqueata”, com mais de 200 embarcações, na Baía do Guajará, que banha a cidade de Belém, sede da 30ª edição da COP. O movimento sindical participará da Cúpula dos Povos. O jornalista Olyntho Contente, da Secretaria de Imprensa do Sindsprev/RJ, entrevistou Crispim Wanderley, que representa movimentos sociais, o Fórum de Qualidade de Vida e Saúde do Sindsprev/RJ, a respeito deste importante evento paralelo à COP 30. Leia a seguir.

Imprensa Sindsprev/RJ – A mídia fala muito sobre a COP-30, a Conferência do Clima, que acontece em Belém, de 10 a 21 de novembro, reunindo representantes de governos de todos os países. Mas quase nada comenta sobre a Cúpula dos Povos, de 12 a 16 de novembro, também na capital do Pará. Você pode nos explicar do que se trata a Cúpula dos Povos?

Crispim Wanderley – Fala-se muito na COP 30 porque é a oficial, que faz parte do contexto de proteção das corporações que destroem o meio ambiente. Já a Cúpula dos Povos é um movimento paralelo à COP 30, onde estão reunidos os movimentos sociais do mundo, as organizações não governamentais do meio ambiente, e grande parte da luta dos trabalhadores por sua sobrevivência. Por exemplo, o Sindsprev/RJ participa desde a Eco-92. Eu participo desse movimento desde as associações de moradores, no MAB. A primeira discussão sobre o assunto meio ambiente, que eu participei, foi em 1978, num debate sobre a utilização do melhor viver nos bairros populares, nas periferias do Rio de Janeiro. E lá, havia uma discussão sobre o processo do calçamento, do modo de utilizar a vivência nos territórios. A primeira grande destruição que assisti foi a do Rio da Prata, em Nova Iguaçu, transformado em valão, ao mesmo tempo que secou a cachoeira do K-11. Neste processo, as pessoas não param para analisar a relação do processo da sua saúde, do seu bem-estar com o meio ambiente em que ela vive; a relação com o próprio território. Isso é uma comprovação, agora, quando as pessoas vão vendo o que acontece no mundo. Só que eu me lembro, quando eu era jovem, vivemos várias situações de catástrofe no Rio de Janeiro e no Brasil.

Imprensa Sindsprev/RJ – Quais os temas principais da Cúpula?

Crispim – A Cúpula dos Povos vem para resgatar não só essa dívida histórica das corporações internacionais que destroem; vem fazer um debate mais amplo. Há uma diferença entre as duas cúpulas. A Cúpula dos Povos são debates abertos, com proposições que já existem nos territórios, de resgate das condições de vida em cada local. Temos um processo que se chama o retorno aos territórios daqueles companheiros e companheiras que fizeram sua formação acadêmica para resgatar a ancestralidade, o saber local, e resgatar com as novas tecnologias o processo de construção de um mundo novo. A Cúpula dos Povos trabalha com propostas da população contra a destruição imposta pelas corporações internacionais, a partir dos próprios Estados nacionais. Neste processo, vivemos um período que é o de resgatar a nossa boa vivência em relação à natureza nos nossos territórios, para que não acabemos sucumbindo à necropolítica do Estado, que é o grande aplicador desta necropolítica. Então, é uma das contradições do Estado: a COP 30, que garante que vai fazer grandes mudanças em relação ao clima, com a criação de fundos financeiros internacionais, o que não têm condições de fazer porque as grandes corporações e os países poluidores não querem avançar além do que eles dizem que já estão contribuindo para a redução do desequilíbrio do meio ambiente. Em contrapartida, a Cúpula dos Povos faz o debate e tem feito aplicações nos territórios onde moramos, com propostas de melhorias das condições de vida. É uma luta muito grande. O que eles ofereceram agora para que os países periféricos consigam sobreviver é a compra da captura do carbono: poluem no espaço deles, e nós é que temos que fazer a captura do carbono em troca de dinheiro, para garantir a nossa sobrevivência no planeta.

Imprensa Sindsprev/RJ – A Cúpula dos Povos deverá apresentar um documento final para a COP-30?

Crispim – A Cúpula só tem um tema: garantir que a gente tenha um planeta para as gerações futuras viverem. O restante é paliativo. Do que adianta falar sobre a sobrevivência de um território aqui, de outro ali, se não vai ter a existência do planeta para outras gerações? Então, a busca real, o tema central e único é garantir a sobrevivência do planeta, e que ele tenha qualidade de vida, de todos os seres vivos, incluindo aí o grande destruidor que é o ser humano. Temos que resgatar o tema central que é a sobrevivência do planeta Terra com condições de habitabilidade para as gerações futuras. A Cúpula vai entregar um documento ao presidente da COP 30. Mas esse documento vai só resgatar o que foi feito pelos movimentos sociais a nível de comprovação dos desastres climáticos que estão acontecendo pelo mundo. Vai entregar, mas é aquilo que falamos antes: entrega o documento, mas será que as corporações vão cumprir este acordo? Porque, agora mesmo, houve uma negação do que prega a própria COP 30. O governador do estado (do Pará) fez um acordo com a Hidro para abrir novas frente de mineração. Dentro do projeto apresentado e acordado entre os gestores dos Estados, eles são tutelados pelas grandes corporações. Nós ficamos de fora. Então, o documento a ser entregue é mais uma formalidade da cobrança por parte da população em relação ao cumprimento dos acordos anteriores, principalmente o Acordo de Paris.

Imprensa Sindsprev/RJ – O movimento sindical estará participando da Cúpula dos Povos? Quais as principais reivindicações?

Crispim – Não só os movimentos sindicais. Teremos as participações dos sindicatos e das centrais sindicais, mas tem uma coisa que acaba favorecendo ao grande capital e às corporações: a falta de unidade entre os movimentos sociais, sindicais e os representantes da esquerda. A gente se une em determinado momento, mas não dá continuidade a isso. O que falta hoje não é só a Cúpula dos Povos participar da COP 30, entregando documentação, fazendo frente, marcha, mas é o pós-COP 30. É saber o que as entidades não governamentais, movimentos sociais, os sindicatos e os partidos de esquerda farão dentro dos seus territórios para garantir que pelo menos em seus territórios tenhamos condições de bem viver com qualidade de vida, com relações de respeito à natureza. Isso é o que temos que ter definido entre nós. Porque não basta participar da Cúpula dos Povos, receber o crachá, conviver com representantes de outros países. Temos que construir a unidade com todos os movimentos sociais para que possamos ter um combate de luta de classes, realmente, no contexto do meio ambiente, da segurança, no contexto do bem viver da população humana e dos demais seres vivos do mundo. Voltar a discutir o que é ser humano

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