25 C
Rio de Janeiro
sexta-feira, março 6, 2026
spot_img

Há um ano, ação truculenta da polícia contra servidores permitiu entrega do Hospital de Bonsucesso ao GHC

Neste domingo, 19 de outubro, completou um ano da ação truculenta da Polícia Militar (PM) e da Polícia Federal (PF) contra servidores que resistiam pacificamente à entrega do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB) ao Grupo Hospitalar Conceição (GHC). Com apoio do Batalhão de Choque da PM, por volta de 6 horas da manhã de 19 de outubro de 2024, policiais do Grupo de Pronta Intervenção (GPI) da Polícia Federal entraram no HFB para desocupar as salas da direção-geral da unidade, onde desde o dia 2 de outubro servidores estavam acampados em protesto contra a terceirização da unidade federal.

A desocupação foi executada em cumprimento à decisão do juiz federal Fábio Tenenblat, a pedido da Advocacia-Geral da União (AGU). A ação repressiva escancarou a contradição do governo federal, que, além de não dialogar, tratou como criminosos os trabalhadores que resistiam à entrega de um hospital público a uma empresa terceirizada, como parte do processo de fatiamento e privatização da rede federal.

O emprego da força repressiva foi descabida e desproporcional. Blindados e veículos de transporte de tropas cercaram a unidade hospitalar, desde o dia anterior. Antes da ocupação, foram feitas várias tentativas de abertura de diálogo, por parte dos trabalhadores e dirigentes do Sindsprev/RJ, sempre negados pelo governo, através da então ministra da Saúde, Nísia Trindade.

Servidores resistem pacificamente à entrada do GHC. Foto: Mayara Alves.

Escudos e cassetetes – O contingente policial contava com o suporte de 50 policiais — entre PMs e federais – que não foram confrontados pelos servidores presentes à ocupação. A ocupação já tinha sido desfeita, quando policiais militares, com escudos e cassetetes, entraram no pátio hospitalar, usando gás de pimenta contra os servidores e dirigentes do Sindsprev/RJ. A diretora do Sindicato Christiane Gerardo foi detida e levada à força para a Superintendência da Polícia Federal, na Praça Mauá.

“Hoje faz um ano desta ação repressiva que tinha como objetivo usar a força para passar a gestão do HFB do Ministério da Saúde para o grupo GHC, com a promessa, até hoje não cumprida, de melhorar os serviços. Foi um episódio lamentável em que o governo mostrou até onde era capaz de chegar para terceirizar a rede federal”, afirmou Christiane, que, além de detida, responde a um processo administrativo, quando apenas cumpria a sua obrigação de dirigente sindical de defender os direitos dos servidores. Lembrou que a detenção foi arbitrária e que a ocupação já havia terminado, quando a polícia invadiu o hospital púbico e agrediu os trabalhadores.

Polícia Federal cerca manifestantes. Foto: Mayara Alves.

Truculência condenável – Sidney Castro, outro diretor do Sindicato, classificou a truculência policial como um ato condenável. “Estávamos fazendo uma resistência pacífica contra a entrega de um hospital público para um hospital terceirizado, um grupo que disse vir para somar, mas é o contrário. O que vemos é a perda dos melhores profissionais e falta de materiais. O atendimento à população e as condições de trabalho pioraram muito. O que mostra que a resistência organizada pelo Sindsprev/RJ estava correta”, disse. “E continua a entrega de toda a rede federal, que, está provado, não resolve os problemas. O que resolve é investimento público, é concurso para admissão de novos servidores. Mas o governo faz o contrário e vem com uma reforma administrativa que ele diz que é para acabar com altos salários. Mas que vai é desmantelar o serviço público”, frisou.

Também diretora do Sindsprev/RJ e servidora do HFB, Ivanilda Ferreira lamentou a ação repressiva. “Tivemos trabalhadoras agredidas e uma dirigente sindical presa arbitrariamente para que tomasse posse o Grupo Conceição. De lá para cá, não mudou nada, pelo contrário. Há desabastecimento geral. Falta o básico, como algodão para o banho no leito, medicações como anti-hipertensivos e diuréticos. Índices de óbitos e comorbidades vêm aumentando. O pactuado (pelo GHC) com o Sisreg não foi cumprido, como a oferta de leitos para cirurgias cardíacas e pediatria, reabertura da oncologia, fechada muito antes da entrega do HFB ao Grupo Conceição que veio como a promessa de melhorar o serviço e nada disso aconteceu”, relatou Ivanilda.

Diretores e servidores tentam diálogo com policiais federais. Foto: Mayara Alves.

Serviço só piorou com teceirização – “Por último, agora, tivemos o caso de profissional contratado sem certificado, o que foi constatado ao percebermos que não sabia executar o procedimento ao paciente. E isso como parte de um processo seletivo irregular. Infelizmente, servidores que lutam por um SUS de qualidade, gratuito e público, são tratados de forma desrespeitosa por um governo que teve a sua história manchada pela truculência verificada no 19 de outubro, inclusive, com a prisão de uma sindicalista”, frisou a dirigente do Sindsprev/RJ.

Tropa especial da Polícia Federal também foi acionada, tornando mais tensa a situação. Foto: Mayara Alves.

Disse que a desassistência aumentou com a transferência de servidores para os institutos e que não estão sendo substituídos. “Os poucos que ficaram estão carregando o hospital nas costas. Muitos profissionais que entraram não têm a expertise necessária. E o usuário é quem está pagando por todo esse projeto do governo”, lamentou.

Roseane Vilela, ex-servidora do HFB e diretora do Sindsprev/RJ, disse que não vai se esquecer jamais daquele dia de extrema truculência. “Me assustei com a presença daqueles policiais fortemente armados e a gente sob risco de ser agredida, como aconteceu com a companheira Christiane. Foi um momento traumático na minha vida, que não vou esquecer nunca mais”, admitiu. Disse ter saído do HFB por saber que não teria condições emocionais de trabalhar com a gestão terceirizada.

Choque da PM cerca servidores que resistem. Foto: Mayara Alves.

“É uma gestão falaciosa que não cumpriria as promessas que estava fazendo. Por exemplo, abriram uma emergência, dizendo que atenderia a toda a população, mas que era, na verdade, uma emergência referenciada (que não atende a todos os casos), em que a maioria vai para atendimento em unidades básicas, o que tem feito com que o número de óbitos tenha aumentado absurdamente”, denunciou.

Blindados e carros de transporte se enfileiravam em frente ao Hospital de Bonsucesso. Foto: Mayara Alves.

Acrescentou que, além disso, o GHC contratou médicos como pessoa jurídica. “Isso porque pelo processo seletivo que eles fizeram não conseguiram o número de contratações que precisavam e passaram a fazer contratos PJ. Ou seja, o médico que vem aqui trabalhar não tem o menor compromisso com o hospital. E pelo que observamos, a maioria é inexperiente. Também não foi cumprida a promessa de restabelecimento da parte elétrica. Os cabos comprados pelo GHC não foram conectatos até hoje, sendo que o hospital continua alugando geradores que custam uma fortuna. Além do risco que representam geradores funcionando 24 horas”, afirmou.

Tropa da PM invade o pátio do hospital e prepara ataque a servidores. Foto: Mayara Alves.
Dirigente do Sindsprev/RJ, Christiane Gerardo, é levada de forma violenta pelos policiais. Foto: Mayara Alves.
Pouco antes de ser detida, Christiane tentava negociar a retirada das tropas da PM. Foto: Mayara Alves.

NOticias Relacionadas

spot_img

Noticias