Neste 29 de agosto, no Brasil, debates, passeatas e outras tantas atividades acontecem para marcar a passagem do Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. O objetivo é chamar a atenção de toda a sociedade para a necessidade de acabar com o preconceito e outras formas de violência contra mulheres que amam mulheres e que têm que ser respeitadas. O Sindsprev/RJ optou por realizar uma roda de conversa sobre “Visibilidade Lésbica”, na terça-feira (26/8), organizada pela Secretaria de Gênero, Raça e Etnia, da qual participaram representantes de vários movimentos de mulheres lésbicas e de instituições públicas ligadas a este importante segmento social.
Visibilidade porque, como frisaram as participantes, as mulheres lésbicas passam por um ‘apagamento’, começando por serem escondidas pela família. Rosângela Castro, do Movimento Felipa de Souza, uma importante liderança do movimento, lembra que este ‘apagamento’, imposto através do machismo pelo patriarcado, exerce uma forte pressão, através de diferentes formas de violência, chegando, inclusive, a casos de agressões físicas e mesmo assassinatos.
Relatou que, por conta desta opressão sistemática, muitas mulheres omitem ser lésbicas. E contou que isto teve repercussão, inclusive, sobre as participantes do Seminário Nacional de Lésbicas, de 29 de agosto de 1996, cuja data deu origem ao Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.
“No livro de assinaturas éramos mais de 100 pessoas. Mas havia muitas mais presentes. Muitas deixaram de assinar ou de aparecer nas fotos por conta da lesbofobia (discriminação contra lésbicas)”, lembrou, durante a roda de conversa. Todas as lideranças lésbicas presentes, ressaltaram que o apagamento está presente já na família que trata como ‘amigas’ ou ‘colegas’ as filhas, irmãs, ou tias que optaram por um relacionamento com outra mulher, evitando os termos usados em relações heterossexuais, como mulher, esposa ou companheira.
Além de Rosângela, participaram da roda de conversa, Thais Marins, do Centro de Cidadania LGBTI; Paloma Moreira, do Grupo Arco Íris de Cidadania LGBTIA+ e da Aliança Nacional; e Mariah Agnostides, do Centro de Cidadania. Todas parabenizaram o Sindsprev/RJ pela iniciativa de realizar o debate.
Iniciativa importante do Sindsprev/RJ – Mariah enfatizou que as lésbicas são muito invisibilizadas pelo machismo. “Por isso é importante termos eventos como este no Dia da Visibilidade Lésbica, no qual as entidades dão voz para estas mulheres, para denunciar a lesbofobia que sofremos. Principalmente no mês de agosto que é o Mês da Visibilidade Lésbica, é importante que as questões ligadas a estas mulheres sejam ditas, que se acabe com os tabús, e que essa palavra (lésbica) não seja mais usada de maneira pejorativa”, afirmou.
Paloma avaliou ser muito importante esta iniciativa “porque quando a gente tem um chamado de um sindicato, esse sindicato está sinalizando que percebe a gente como trabalhadoras, mulheres que produzem, que trabalham. É muito importante trazer isto, porque já denota o nosso recorte de classe. Somos lésbicas, somo mulheres que trabalham. Acima de tudo é importante trazer isto porque temos direitos, mas a gente vem lutando muito por cidadania, por visibilidade, por trazer as nossas pautas para ter espaço para poder compartilhar as nossas vivências, as nossas expectativas, os desafios”, afirmou.
Acrescentou que “é preciso ter mulheres lésbicas participando da vida do Sindicato, ocupando e trazendo nossas demandas dentro do trabalho, por exemplo, o que a gente entende por um lugar seguro para trabalhar, onde nossa saúde mental e a nossa identidade seja respeitada. A gente está atrelada à luta da categoria”, pontuou.
Denuncie – Taís Azevedo, disse que a oportunidade de falar sobre este tema deveria ser garantida por todas as entidades do movimento social. “Mas infelizmente a gente não tem esse acesso; essa possibilidade de falarmos, para além das pessoas entenderem a nossa vivência, é também uma forma de cura, cura dos fatos que nos impactam”, ressaltou. Acrescentou ser isto importante no seu próprio trabalho de atendimento a lésbicas, no disque-denúncia e no programa Rio Sem LGBTfobia. “É importante falar porque este processo nos ajuda no atendimento técnico ao usuário”, afirmou.
Relatou que o Rio Sem Lesbofobia, foi uma conquista do movimento social, da pressão do segmento LGBTQIA+. “Nosso programa tem 23 equipamentos, espalhados pelo estado do Rio e três centros comunitários. Estão na Zona Central, Zona Oeste, Zona Norte, Região dos Lagos, e também na Serra. São compostos por uma coordenação, assistentes sociais, advogadas e psicólogos. A gente entende que a população LGBT precisa destas três frentes para conseguir um bom atendimento. Também atendemos os familiares e os amigos para entender os problemas, porque, na maioria das vezes, a violência é ocasionada pelo entorno destas pessoas”, ressaltou.
Frisou ser um programa aberto a toda a população de forma gratuita que atende presencial e virtualmente. “É só a pessoa interessada entrar em contato através do disque 0800234567 que será encaminhada para o Centro de Cidadania mais perto da sua residência”, disse.
Comissão de Ética do Coren/RJ – Hellen Senna, diretora do Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro (Coren/RJ), disse que esconder a sexualidade não heterossexual é uma tentativa de destruir o outro e seus relacionamentos. “O mês da visibilidade lésbica tem como objetivo fazer com que este apagamento não aconteça mais. Por isso é importante falar sobre este assunto, como estamos fazendo agora num sindicato de trabalhadores”, afirmou. Acrescentou ter vários casos de homofobia, que são usados contra a categoria da enfermagem, mas também por integrantes da própria categoria contra estas pessoas (LGBTQIA+).
“Tivemos recentemente o caso de uma responsável por um processo de seleção, que fez um aúdio dentro de um grupo de mensagens dizendo que não contrataria pessoas LGBTIQIA+. A gente sabe que isto existe, que sempre existiu. A pessoa não te contrata, mas você não sabe a motivação. Mas o responsável sabe o porquê”, frisou. Ressaltou que denuncias podem ser encaminhadas à Comissão de Ética do Coren/RJ.


