Lincoln Penna
Historiador
O Brasil corre risco neste ano do processo eleitoral, certamente o mais importante de sua história, e cuja atenção redobrada precisa ser despertada por quem sustenta o princípio basilar da cidadania consciente expressa na defesa de nossa soberania. Ela está em jogo em virtude de interesses subalternos movidos por uma estratégia que visa a subordinação do território brasileiro por parte dos EUA. Não se trata de um exercício de teoria da conspiração, tampouco uma das muitas alucinações delirantes do atual presidente yankee.
Trata-se de uma estratégia concebida pelos ideólogos do anticomunismo e que tem respaldo na política de controle de minerais estratégicos, tais com o nióbio e as terras raras, ambas as riquezas em potencial despertam a cobiça imperialista em face de o Brasil deter boa parte dos dois minerais em todo o mundo, sendo o do nióbio em mais de 90% e no que se refere às terras raras só a China possui uma área superior à brasileira. A barganha sub-repticiamente considerada por Washington em troca da redução de tarifas escorchantes promovidas delirantemente por Donald Trump dá a medida do que representam essas duas fontes para as indústrias mais recentes que precisam dessas fontes.
Essa volúpia imperialista já tinha se manifestado por ocasião do boom petrolífero ao longo do século XX. As grandes guerras desse século atiçaram ainda mais os poderosos interesses do grande capital e a sua determinação de formar um monopólio com vistas a concentrar a exploração do ouro negro. No Brasil, a campanha O Petróleo É Nosso! mobilizou civis e militares e ensejou uma batalha cívica, que resultou na Petrobras.
Em paralelo, os EUA encerravam sua intervenção na Coréia, assim como iria logo em seguida se envolver ainda mais no Sudeste Asiático, especialmente no Vietnam. À época o Brasil começara a dar os primeiros passos para a adoção de uma política nacional-desenvolvimentista iniciada durante o Segundo governo de Getúlio Vargas, que procurou adotar uma política externa que evitasse um confronto com os norte-americanos, sem renunciar ao papel do estado como indutor do desenvolvimento.
As consequências de uma postura não alinhada automaticamente aos EUA criariam as circunstâncias que levaram a identificar o Brasil como um aliado não confiável, cuja avaliação nesse sentido foi reforçada quando da Revolução Cubana de janeiro de 1959. Assim, a associação de uma eventual ameaça caso a recepção do novo regime cubano viesse a permitir a expansão do exemplo cubano na América e, sobretudo, no continente latino-americano, logo não se limitando à Ilha, engendrou o plano que conduziu ao golpe de 1964. Mais do que uma interferência havia uma verdadeira obsessão a respeito dessa possibilidade de uma Brasil socialista a se irradiar por todo o território sul-americano, pelo menos.
Portanto, nada acontece naturalmente em termos de política externa, principalmente. Há sempre motivações alimentadas por interesses que vão desde a influência sobre uma dada situação a despertar a logística com o objetivo de ganhos de diversas naturezas, e que são estimuladas por interesses que atendam a cada protagonista no cenário das relações internacionais. Presentemente o fato de nos encontrarmos numa conjuntura de crises continuadas em áreas conflagradas só agita esse cenário.
Diferente de anos anteriores, que ao longo do século XX concentravam interesses de grandes potencias em territórios periféricos, geralmente de passado colonial, presentemente há estratégias globais que surgiram no Ocidente capitalista após a formação do BRICS, fortalecidas principalmente com a ampliação desse organismo que tem como carro-chefe a China, a assumir um protagonismo relevante. Diante dessa realidade e tendo o Brasil fazendo parte do bloco que envolve nações ocidentais e orientais, o novo imperialismo despertou para a necessidade de integrar um comboio de países alinhados à cabeça desse imperialismo, os EUA.
Quadro mundial que não descarta a possibilidade de multiplicação de conflitos isolados ou até regionalizados, o que demanda políticas de defesa nacional e de parcerias para que cada ente nacional se situe em face desse novo cenário ameaçador, cuja possibilidade de paz não parece ser o caminho mais provável, ao contrário. Cabe, portanto, ao Brasil fazer a leitura correta de modo a orientar decisões que levem em conta o mundo e suas perspectivas a partir do agora. Talvez o exemplo iraniano possa nos servir como inspiração. Lá e não obstante a divisão radicalizada como aqui as forças políticas se juntaram na defesa da soberania do país. Esse valor maior de autonomia contra a ingerência externa por aqui não só não prospera como, ao contrário, tem demonstrado mais subserviência do que colocado em primeiro plano o interesse do povo brasileiro, por parte de uma das correntes, ou seja, a do bolsonarismo, que prefere entregar os nossos destinos ao dos EUA e colocar o povo cada vez mais entregue à própria sorte.
É esse o risco iminente. Nessas próximas eleições o que está em jogo é o confronto entre patriotas, sejam de esquerda ou direita, e os entreguistas, tal como aconteceu quando da campanha em prol do monopólio do petróleo, cujos entreguistas defendiam a exploração por empresas estrangeiras sob a alegação de que o Brasil não dispunha de condições para realizá-la.

